Voar

Desta vez, tínhamos escolhido um penhasco.

Não importava realmente onde, só precisávamos de rocha alta e mar. Finisterra, arquipélago, cabo do Mundo, a geografia acabou por ser desinteressante, mandámo-nos para a primeira linha de ecrã dos destinos do dia em que nos decidimos a voar para fora do confinamento. Paradoxalmente, quando chegámos, sentimo-nos dentro. Dentro de uma bolha de paz e ar livre para lá da qual ficava o resto do mundo – lá fora deixámos o resto do mundo.

Levantámos as mochilas nas costas e começámos a andar. Sabíamos onde parar, mas só quando lá chegássemos. Era uma viagem sem destino traçado, mas com objectivo definido. Até lá, andámos. Percorremos asfalto ao som de músicas escolhidas ao desafio, ora minhas ora tuas, construindo uma playlist comum. Parámos em prados. Um prado era, antes da viagem do penhasco, uma imagem de desenho animado nas nossas cabeças, feita de lonjura, verde e primavera. Descobrimos relva húmida, horizonte ondulante e silêncio inquebrável, onde eu lia em voz alta para ti até o tempo desaparecer. Ficámos fãs de prados e do seu cheiro permanente a chuva e a ausência.

Metemos botas a caminhos mal traçados de terra pouco batida, para descobrimos no fim de cada estrada incerta lembranças de civilização, que nos acolhiam por uma ou duas noites, em casas transitórias, mas de camas quentes e sorrisos abertos às mesas. Metemos almas a caminho e o caminho devolveu-nos as almas daqueles com quem nos cruzámos e em cujas vidas entrámos sem pudor. De cada cama e de cada alma trouxemos connosco um pouco mais de humanidade, daquela que nos tínhamos esquecido que existia e que dentro desta esfera de isolamento involuntário se reconstruía a cada nova terra, a cada nova ombreira de porta, a cada nova malga de sopa ou de leite.

Um dia, quando já tínhamos deixado de contar os dias e o resto do mundo lá fora já era uma miragem que as nossas memórias inventavam em jornadas de chuva, chegámos ao penhasco. Ao nosso penhasco. Subimos – nem montanha nem colina, só subimos o suficiente para que o ar frio da altitude nos queimasse o fundo dos pulmões – e chegámos. O fôlego não conseguia duplicar-se em conversa e respiração e por isso chegámos calados. E não foi preciso que conseguíssemos falar para sabermos onde largar as mochilas e olhar. Olhar o mar azul cheio de revolução branca à superfície que se perdia para lá da curva no mundo. Olhar a rocha coberta ainda de restos de prados que se alçava sobranceira e imponente em aresta sobre o mundo. Olharmo-nos num silêncio de fôlego recuperado mas quebrado de comoção, sabendo que era este o destino por encontrar.

Conseguimos improvisar um abrigo que orgulharia o Bear Grylls, coberto de tenda mal montada e acolchoado por quase todas as roupas que tinham cabido nas mochilas, reconvertidas agora em almofadas ásperas. Sem saber de ventos ou de animais, juntámos madeira escassa dentro de rocha abundante em instinto urbano que se provou tosco e hilariante de falhanços. Quando o sol desceu, tínhamos conseguido aquecer duas latas de conserva, carbonizadas por fora diretamente no fogo mas aconchegantemente fumegantes por dentro, e fizemos pouco de nós mesmos ao som das lembranças das VHS do Terence Hill e do Bud Spencer que os nossos pais viam nos Domingos da nossa infância.

Com o fogo a estalar nas nossas costas, sentámo-nos, lado a lado, de olhos postos no mar que agora aparecia negro e profundo, iluminado por astros cujos nomes inventámos em constelações cada vez mais idiotas. As beatas atiravam-se para a fogueira, ao lado da qual repousava a primeira garrafa de vinho da viagem, que se esvaziava ao sabor das conversas soltas, fluidas, às vezes dilacerantes, às vezes corriqueiras. Quando as baterias morreram e a música se calou, voltei a ler para ti, desta vez do alto do nosso penhasco. E as minhas palavras soprava-as o vento aos ouvidos durante essa noite feita de perdição. Da perdição do mundo lá fora, da perdição do futuro que não sabíamos, da perdição mútua dentro do outro que entrava cada vez mais fundo, numa amálgama de mãos, bocas, braços que agarravam e prendiam, pernas que se entrelaçavam e peitos que se encostavam para alinharem dois ritmos num só batimento.

Quando acordei com uma lâmina de pedra espetada na omoplata, vi claridade para lá do pano impermeável do tecto. Livrei-me das camisolas usadas que tinham sido o lençol da noite para logo a seguir as vestir quando as agulhas de frio da montanha se espetaram em cada poro da minha pele. Corri para cima o fecho da tenda e meti a cabeça de fora, como se fosse um cartoon. O sol tinha saído da cama, mas as nuvens ainda repousavam na terra e por isso havia luz sem claridade que ferisse os olhos. Via-se até lá ao longe, apesar do filtro da neblina, e entre mim e o horizonte estavas tu, pendurado no penhasco, no limite entre a terra e o mar, suspenso numa fronteira da realidade. Fiz barulho ao aproximar-se, não fosse isto tudo acabar em parangonas de telejornais sensacionalistas, e quando me ouviste, estendeste-me a mão para que nela apoiasse a vertigem e me conseguisse juntar a ti no gume do mundo. De olhos sempre postos lá no fundo, enrolaste o braço à minha volta e deste-me os bons dias:
– Chegámos.
– Chegámos. Agora só nos falta aprender a voar.

Simon Migaj (Pexels)

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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