O som da tua pele

Acordei contigo nos meus sonhos hoje. Morfeu fez vista grossa quando te peguei na mão e te trouxe para o lado de cá da ombreira do real, directa para a chaise longue da sala, onde te cobri de mantas e te depositei uma chávena de chá no colo. Estás aqui, agora, nesta casa que nunca chegaste a conhecer e onde vou passar o dia contigo.

No meu sonho era Verão. Em mim, essa aldeia tem apenas duas estações. A canícula sem sombra do Verão, recheada de águas frias em púcaros de barros e ribeiras que correm selvagens, e o cheiro a madeira queimada do Inverno, povoado de sabores e de saberes dessa terra onde pertenço sem nunca de lá ter sido.

Esqueço-me já dos contornos do sonho. Sei que brincava em adulta como brinquei noutros tempos em criança, de mãos na terra, amoras esmagadas na boca, pernas alçadas em ramos de laranjeiras. Lembro-me dos risos. Soltos, cristalinos, identificáveis. Lembro-me dos rostos. Livres, molhados, feitos de olhares felizes. São notas soltas numa folha de música da qual só fixei a última pauta.

Estava na altura de vir embora, chamavam-me sem parar da rua, naquela pressa masculina de se fazer à estrada. Estavas sentada num banco corrido de madeira velha e gasta, com as mãos no regaço, a tua roupa preta e carrapito branco. Aninhei-me à tua frente, aconcheguei as tuas mãos e encostei os lábios ao teu rosto de pele enrugada, fresca e fininha como papel de bíblia. Molhei-te as bochechas marcadas pelo tempo com as lágrimas penduradas dos meus beijos, sabendo que se calhar não te voltava a ver.

Apesar da pandemia e de toda a gente de repente me gritar que não te tocasse, abracei-te. E foi aí que te roubei ao Senhor do Sonho e te trouxe comigo. Saltámos juntas o véu que separa os mundos e vieste ensinar-me a fazer filhoses.

Tirei um alguidar azul de que não me lembrava da bancada, fui buscar farinha de trigo e açúcar branco que não existiam ao armário e ensinaste-me como se sova a massa. Vejo os teus braços velhos, tão mais fortes que os meus, a trabalhar e sei de repente como criaste sete filhos e alegraste quinze netos durante o tempo em que te tivemos. Vejo como separas a massa húmida dos teus dedos finos e compreendo de onde vem este meu carinho abrutalhado que tão mal se exprime. Ouço-te a mandar na minha casa com essa segurança de quem teve que sofrer as dores de fazer a vida acontecer e reconheço a herança milenar que nunca pedi mas que me compõe em carne, sangue e osso como mulher.

Ouço-te cantar e quero aprender todas as letras e melodias. Ouço-te contar e quero decorar todas as memórias de tempos idos. Ouço-te ralhar e quero gravar na memória todas as tradições que davam ordem ao teu mundo que já não existe. Para que, pelo menos hoje, não te tenha perdido cedo demais e possa ainda receber das tuas mãos velhas, encarquilhadas e que soam a pergaminho, quando as juntas em oração, quem sou – por de ti ter vindo.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

2 opiniões sobre “O som da tua pele

  1. As tuas palavras transportaram-me para outros tempos, outras mãos, os mesmo afectos, as mesmas saudades. Deixaste-me de coração apertado, mas neste caso é um sentimento bom. Obrigado. Beijos.

    Liked by 2 people

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: