Sopro

Disseste-me que te escrevesse.

Não que te endereçasse uma carta, nem que te explicasse em letras. Disseste-me que te escrevesse como quem me oferece uma solução a um dilema que te apresentava. Foi aí que o turbilhão que me circulava na mente ganhou força e entrou em modo furacão, categoria cinco.

És vento.

És o elemento que nenhuma foto captura, a força da natureza que ninguém domina, o sopro que nunca vamos a tempo de tocar. Era fácil dizer que saltas e voas, é o que passas a vida a fazer, mas quando te penso é no movimento do ar que me arrasta os cabelos que te encontro.

Vejo-te no marulhar das folhas das árvores, no branco que orla as escarpas das marés vivas, no ar que me silva nos ouvidos quando saio à rua em noites de tempestade. Sinto-te quando repouso num banco à beira mar e alguém desliza por mim em velocidade. Intuo-te em cada rajada que me toca e segue para longe sem que saiba encontrar-lhe destino.

És alísio quente que corre para a linha do Equador com areia nas entranhas. És corrente polar que mantém o mundo a girar, sempre de Este para Oeste num movimento perpétuo que gera vida e a sustenta.

Não te consubstancio, não te agarro por entre os dedos por muito que feche as mãos em punhos, não te toco nem quando te seguro a cara entre as mãos. E no entanto estás lá, envolvente, como um manto feito de ar que me contorna em cada curva, me cinge com força e me aquece a pele ao beijar a minha liberdade.

Pertences-me quando não te tenho porque te vais, em movimento eterno, descoberta permanente, desafio constante. Foges-me ainda, mas deixas-me sentir a brisa que te acompanha, às vezes em carícia, às vezes em desafio, num jogo que dominas e no qual sou aprendiz.

Nunca me deixo levar ao sabor do vento, sou terra firme e pé no chão. E é por isso que a redescoberta do vento que és me revolve o cabelo e desnorteia a alma. Valha-me o coração que não há rajada que me arranque do peito.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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