É só carregar num botão

Só me lembrei quando passei a soleira e senti o silêncio. Parei na entrada, com a porta ainda aberta, a carteira ao ombro e a Uncharted a saltar em automatismo do telemóvel para a coluna esquecida nessa manhã no esvazia bolsos. Ainda por cima Kensington era a tua cena, tinhas sido tu a trazê-los para dentro de casa e a habituar-me ao ritmo indie do rock holandês. Vimo-los ao vivo em Amesterdão no Inverno passado e parada no átrio da minha casa a tua ausência assentou-me novo soco no estômago.

Noutros tempos, teria deixado as pernas dobrarem e caído no chão em abandono. Mas a colecção de sofrimentos que vamos fazendo ao longo da vida imuniza-nos e faz com que seja mais fácil resistir à dor. É uma espécie de calo emocional que nos dessensibiliza.

Cumpro as rotinas e a primeira coisa que faço antes de sequer fechar a porta é parar a merda da música, que a última coisa de que preciso é de recordações de tempos felizes. Ligo o portátil na ilha da cozinha e decido que atum escorrido, ovo cozido e maçã lavada é o máximo de esforço que estou disposta a fazer. Mesmo assim, vou ligar à Mariana que o silêncio está insuportável. Quando pego no telemóvel, vejo-te online – odeio o ritmo moderno da comunicação interpessoal, é como se estivéssemos constantemente a vigiar a presença uns dos outros à distância, numa obsessão permanente com a disponibilidade alheia. Mas a asneira está feita, o cérebro vai lá sozinho e ainda nem percebo muito bem o que fiz quando atendes.

– Estou?… – soas surpreendido e cauteloso, como qualquer ex que se preze.
– Estava a ouvir a Uncharted quando cheguei a casa e lembrei-me de ti.
– Ok, entendo. Estás bem?
– Não, claro que não, mas também não sei porque é que te liguei, desculpa.
– Não peças desculpa, sabes que podes ligar quando quiseres.
Tenho vontade de te insultar, a ti e mais à puta da tua boa índole. É uma merda ser dispensada por gente emocionalmente saudável, que nos deixa sem ângulo para a retribuição.
– Não, claro que não posso, nem devia estar a ligar agora, mas acho que foi uma mistura de automatismo e saudade. Entrei em casa e não estavas. Arruinou-me.
– Lamento. – sai-te forçado e hesitante, consigo ver dentro da minha cabeça o esgar de desconforto que estás a fazer neste momento.
– Esquece, acho que só precisava de ouvir a tua voz, vai demorar algum tempo até me habituar à ideia de que deixaste de estar aqui. – sei que estou a ser uma besta, mas é como se a minha boca tivesse vontade própria; fala e o meu cérebro encolhe-se a ranger os dentes em arrependimento.
– Sabes que continuamos amigos, além de tudo o resto. Vou sempre querer reviver Kensington contigo.
E aí está a estocada final que ainda me fazia falta. A bondade estendida graciosamente que o sofrimento me faz encarar como caridade pela desgraçadinha descalça e de mão estendida que tresanda a Estado Novo que agora me sinto.
– Obrigada. – sai-me em reacção e fico ainda mais furiosa, é positivamente brilhante, pões-me a andar e ainda te ligo para te agradecer.
– Achas que amanhã podes vir buscar as tuas coisas? – e agora torcemos a faca no sentido dos ponteiros do relógio, só assim para garantir que não há uma fibra que fique por rasgar.
– Se não te importas, marcamos para o fim de semana, dá-me mais jeito. E não te preocupes, vou apagar Kensington da playlist de fim de dia, a ver se isto não volta a acontecer.
É mais forte do que eu, fui criada pela imperatriz do passivo-agressivo e pelo mogul do orgulho inquebrável, estas tiradas saem-me quando deixo de estar em controle das minhas emoções.
– Claro, diz-me depois quando te dá jeito, se não estivermos em casa deixo-te a chave.
“Estivermos”.

Olho para o cursor preto a piscar no fundo branco do portátil e para o ecrã do telemóvel quando desligo. A escolha é só uma. Passamos pela porta A para enterrar as unhas na carnificina e começar a passar agulha e fio pelo desastre, ou deslizamos pelo alçapão B para afundar a consciência na abstração e damos um nó no saco sem sequer uma mirada ao que vai para o lixo.

Ligo o Tinder e vou tomar banho.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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