Primeiro amor

Subi as escadas a correr, tinha ficado a conversar depois das aulas e estava atrasada para ir ter contigo. Como sempre àquela hora os teus pais estavam a trabalhar e tínhamos a casa só para nós, por isso nem me dei ao trabalho de bater, abri a porta de fora e galguei os degraus para o sótão. A porta de cima estava fechada, mas não era invulgar – eramos adolescentes educados por uma geração que não nos deixava trancar os quartos, mas já respeitava uma porta encerrada ainda que sem chave.

Entrei, atirei a mochila (era vermelha nesse ano, sem bonecadas que já era uma mulher de 15 anos) para o chão e chamei por ti. Via os teus pés pendurados do lado direito do sofá, deitavas-te sempre nessa posição, de barriga para cima, para sacudires a cinza dos cigarros com a mão esquerda na mesa de café. Nunca acendíamos a televisão da parede em frente, passávamos as tardes embrulhados numa nuvem de haxixe, sexo, música, leituras em voz alta e conversas sobre a natureza da vida que envergonhariam alguns estudantes de filosofia. Ainda hoje quando falo de ti a alguém te descrevo como o primeiro homem que me viu. E esperei muitos anos até que alguém me voltasse a ver com a profundidade com que tu o fazias.

Comecei a explicar-te porque é que me tinha atrasado enquanto despia o casaco e me descalçava, mas estranhei que não houvesse música. Havia sempre música. Chamei por ti. Não respondeste. Lembro-me de pensar que tinhas estado a fumar um charro e adormecido e lembro-me de isso me ter irritado enquanto caminhava na direcção do sofá. Quando estava a chegar, voltei a chamar por ti, já num tom agreste e pronta a disparatar, acho que ainda tinha até a boca aberta na última sílaba do teu nome quando te vi, deitado, pés junto aos meus joelhos, cabeça na outra ponta do sofá, atirada para trás, olhos arregalados, boca aberta numa nuvem do que parecia espuma. Foi a primeira vez na vida que me senti desmaiar de medo. O meu cérebro não conseguia perceber o que estava a ver, mas o meu corpo já lhe estava a responder. Hesitei, paralisada durante o que me pareceram horas, enquanto olhava em volta e via o elástico que geralmente prendia os molhos de esferográficas do teu pai apertado à volta do teu braço esquerdo, que caía do ombro para o chão. E uma seringa. Uma seringa enfiada no que uma semana depois me explicariam em detalhe ser a veia basílica. Ficou-me daí uma atracção mórbida por anatomia que dura até hoje. Queria-me mexer, arrancar-te a seringa do braço, limpar-te a boca, abanar-te até acordares, mas estava congelada num pensamento circular que me prendia ao chão “tinhas-me prometido que não fazias isso, tinhas-me prometido que não fazias isso, tinhas-me prometido que não fazias isso.”

Pus a mão esquerda no teu pé direito e abanei-te ao de leve. A tua perna mal se mexeu. Segurei-me com força ao braço do sofá para conseguir contorná-lo com pernas de borracha e ajoelhei-me ao lado do teu peito. Não fui capaz de tocar na seringa, mas pus-te a mão no peito, palma em cima das costelas esquerdas, como fazia quando tínhamos sexo para sentir o galope do teu coração. Estavas morno. Foi nesse toque que a realização chegou. A minha mão esquerda encostada ao teu peito; morno, calado e morto. Dobrei ainda mais os joelhos para me sentar nos tornozelos e comecei a desatar o elástico. Estava bem preso, mas com um nó simples, não foi complicado de tirar. A tua pele estava mais pálida na linha onde tinha estado o elástico. Tirei a seringa devagarinho, com cuidado para não te magoar, e pousei-a junto com o elástico na mesa, ao lado do prato de casquinha que celebrava o décimo aniversário da tua mãe na função pública e que tinhas usado para derreter o que sabia ser heroína. Eram os anos noventa, toda a gente sabia o que era heroína.

Pus-te o braço dentro do sofá, dobrado no cotovelo e descansei-te a mão na barriga. Levantei-me, fui ao gira-discos e pu-lo a funcionar sem ver sequer o que é que lá estava. Era a Revolution dos The Cult. Primeira faixa do lado B do disco 1. A minha memória sempre foi má, mas sei esses dois vinis de cor até hoje. Voltei para o sofá e sentei-me no chão, ao teu lado. Apoiei a cabeça no assento de maneira a que as nossas têmporas se tocassem. Senti o cheiro a vomitado, mas acho que não o associava à morte, era o cheiro das ressacas. O céu foi escurecendo por trás das duas claraboias e eu fiquei ali, sentada, com a cabeça encostada à tua, as mãos pousadas nos joelhos dobrados, a contar-te o meu dia, a discussão que tinha tido com o meu pai na véspera depois de desligarmos o telefone e a perguntar-te se as aulas da faculdade eram realmente tão difíceis como toda a gente dizia.

Já não havia luz no sótão quando ouvi a porta a abrir-se e alguém a entrar depois de bater. Percebi que devia ser a tua mãe e num relâmpago entendi o que ela ia ver. Tentei levantar-me, mas quando me endireitei ela já tinha deixado cair o tabuleiro com o lanche e gritava. Nunca tinha ouvido um grito assim, vindo dum desespero que nem humano deve ser. E com esse grito abriram-se as portas do inferno e tu morreste em mim também.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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