Vigília

Pelas paredes casca de ovo do quarto escorrem gotas de angústia. Cintilam à luz do candeeiro de quadro que ilumina a cabeceira da cama. Na parede em frente, os motivos do papel reflectem-se e brilham na mesma frequência, desenhando um mapa de pontos que lampejam como se me fitassem em perseguição. Desvio o olhar para o tecto, mas é um exercício fútil, como quando tentamos fazer de conta que não percebemos que alguém nos está a observar do outro lado de uma sala.

Os lençóis ainda são de Verão mas pesam horrores hoje. É como estar submersa numa camada densa de uma gelatina asfixiante. Esforço-me por me fixar no meu corpo, nas sensações físicas e começo pelos pés, que estão frios. Sinto imediatamente um arrepio atrás do umbigo que me faz arquear as costas e não é em luxúria. O colchão por baixo de mim volta a abrir-se e caio, em vertigem, sem me mexer mais um milímetro, num despenhadeiro desamparado. Dentro da minha cabeça esbracejo e tento escorar-me com as unhas a alguma réstia de sustentação.

Acabo por regressar, acabo sempre por regressar destes desesperos, e dou por mim imóvel, na minha mesma cama, dentro do meu mesmo quarto, encerrada pelas mesmas paredes por onde ainda escorrem fios líquidos de angústia que desembocam no chão para formarem poças ameaçadoras da consistência de mercúrio. O ar não cheira a nada, como quando estamos enterrados em neve, e só ouço o apertar ritmado do coração lá ao longe, atrás de corredores intermináveis de portas fechadas.

Há sombras que se mexem no tecto apesar de tudo estar imóvel dentro deste cubo de espaço. Traçam rastos e esborraram manchas, em padrões aleatórios e sem destino. Tento voltar a concentrar-me num ponto palpável de mim para escapar a este estado de alerta, mas tenho medo de voltar a deslizar pelo sorvedouro que ainda pulsa já aqui debaixo da cama.

Giro os olhos à minha volta e fixo-me numa gotícula de angústia que acaba de nascer junto à esquina horizontal da parede esquerda. Só a vi porque a luz amarela lhe bateu no ângulo certo, que é tão pequena que me faz semicerrar os olhos. Parece um animal acabado de nascer, que se tenta pôr em movimento, tentativamente, num esforço óbvio de balanço. Acaba por conseguir deslizar, primeiro só um poucochinho, que pára logo a seguir. Mas está a ficar mais forte, mais confiante e volta a arrancar, escorrendo devagar pela parede, num risco hesitante que segue a gravidade sem seguir a direito. Pelo caminho vai engordando, como se sugasse de de dentro da parede reforços para aumentar as fileiras. Cresce e acelera, deixando um trilho cada vez mais largo e começa um trote que vira galope e posso jurar que ouço quando desliza para dentro do lago que vai crescendo pelo chão fora. Perco-lhe o rasto quando se dilui.

Respiro fundo em resignação e volto a olhar para o topo da parede à procura de mais uma pequena gota de angústia para acompanhar até à piscina de desespero que começa a empapar as tábuas do chão.

“Aurora” – Björk (Vespertine)

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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