El Santet

Fui a primeira a chegar. Sou sempre a primeira a chegar, garanto-me disso. Dá-me alguma ilusão de controle já estar instalada quando apareces. Vens directo do aeroporto e por isso, apesar de já ter comprado os bilhetes online, entro para perceber se o bengaleiro está aberto. Depois de confirmar que vais poder guardar a mala, dou a volta e sento-me nas escadas ao lado do Lluís Millet.

Abro o “Não Digas que Foi um Sonho” e distraio-me com as desventuras de Cleópatra e António. Quando pauso no final do capítulo de Octávia para ver as horas, uso os bilhetes para marcar a página e rio-me da ironia que é ler esta história antes de assistir ao Requiem de Verdi.

– Ris-te do nariz dela ou do destino dele?
– Rio-me do Requiem que vamos ver em antecipação do desastre que os espera aos dois, e ao Egipto.


Podíamos dizer olá como as pessoas normais que se reencontram pelas ruas da vida, mas não era a mesma coisa.


– Já chegaste há muito?
– A Barcelona ou aqui?
– Os dois.
– Aterrei ontem, aqui estou há uma meia hora.
– Continuas a querer ser sempre a primeira a chegar?
– Claro.
– Sabes que isso demonstra uma profunda insegurança?
– Só se souberem que o faço de propósito.
– É justo. Preciso de guardar a mala.
– O bengaleiro está aberto, basta passarmos por lá uns minutos antes de entrarmos para a sala. Ainda temos tempo, não me apetece ficar à espera de máscara posta lá dentro, por muito bonita que seja a sala.
– Sabes que não conheço o Palau?
– A sério? Podemos ir, então, se queres ver o interior, tem uma cúpula invertida, em vitral, impressionante.
– Não, deixa, vejo quando entrarmos.

Sentas-te no degrau de onde me levantei e pões as pernas em cima da bagagem, com a segurança do costume. Roça a arrogância, essa postura de quem sabe sempre como se mexer, o que dizer e para onde olhar.

– Quanto tempo ficas em Barcelona?
– Volto Domingo para Amesterdão. E tu?
– Fico uma semana.
– Vais a Figueres então, não?
– Claro, nunca perco a oportunidade de visitar a minha Galatea.
– A do Salvador.
– Terá sido, agora é minha, quando lá vou olhar para ela.
– Dali, Buñuel, Cesariny. Tens uns gostos surreais.
– A sério que fizeste essa piada? Tenho-te em melhor conta.
– Dá-me um desconto, estou exausto.

Tinha visto as marcas por baixo dos olhos e a pele quebrada nos cantos da boca, mas presumi que era a vidinha de caixeiro viajante que continuas a levar com idade para já teres juízo que te estava a afectar.

– Mas está tudo bem?
– Nada que não possa esperar pelo jantar.

Desvias o olhar para a fachada e é isso que me põe em alerta. Temos tanto de superficiais como de íntimos, fruto de uma amizade que tem mais décadas que a maior parte dos casamentos e o nosso único tabu são as tuas dores. Quando nos conhecemos, aqui nesta mesma Barcelona onde regressamos sempre, mostraste-me de rajada a tua vida, as tuas crenças, os teus amores – tudo no espaço de uma semana onde só nunca falámos das tuas angústias. Fechaste essa caixa de Pandora durante muito tempo e foi só durante o teu primeiro divórcio que acabaste por despejar em enxurrada a súmula de sofrimento que a vida já te tinha dado e foi porque a agonia era de tal ordem que não o conseguiste conter. Mesmo desde aí, é sempre penoso conseguir que te dispas e partilhes as tristezas.

Vamo-nos actualizando do dia-a-dia dos últimos meses durante o espectáculo e ao sair decidimos jantar perto do apartamento que aluguei para podermos abandonar a mala. Irrita-te que tenha escolhido ficar no Raval, és todo Eixample e Gràcia, mas quando sou eu a organizar estes interlúdios é aceite que sou eu que decido, por isso resignas-te ao meu lado decadente. Mas queria-te de bom humor, por isso tinha feito reserva na esplanada do Dos Palillos. Espero que acabes o segundo copo de Edetària Seleció branco antes que chegue sequer a primeira tapa para atacar.

– E esse cansaço que até te deu mais cabelos brancos nas têmporas desde o ano passado é só de rodares as equipas de cabine todas ou há algum problema?
– Continuas a achar que levo as hospedeiras todas para cama?
– Assistentes de bordo. E todas não, só as bonitas.
– Não me sobravam horas no dia.
– E não sobram. Mas não te extravies. E fora de tangas. Que se passa?

Foges com os olhos outra vez, encostas-te na cadeira e fazes girar o vinho no copo. Estás tenso, os nós dos dedos da mão que segura o braço da cadeira estão brancos da força com que a apertas inconscientemente. Já tinha lido esta descrição centenas de vezes, mas nunca a tinha visto no mundo real. Não respondes e deixo o momento alongar-se. Continuo debruçada sobre a mesa na tua direcção, cotovelos no tampo, mãos entrelaçadas por baixo do queixo, e olho-te com ternura e expectativa mas determinação. Continuas calado e chegamos àquele ponto em que os silêncios, mesmo entre velhos conhecidos, só se aguentam à força de resolução. Espero e estendo a mão direita sobre a mesa, na tua direcção, palma no tampo, dedos estendidos. Ainda uso o anel que me compraste num Sábado no Campo de Santa Clara, às vezes no polegar, outras, como hoje, no dedo médio.

Regressas à mesa, pousas o copo, assentas também as mãos no individual mas sem me tocar. Cravas os olhos no rótulo da água e respiras curtinho, quase sem inalar, antes de falares:

– O Gustavo morreu.

Dizer que o chão me fugiu de debaixo da cadeira é um eufemismo. Perdi o pé, tive uma vertigem, física, e emudeci. Continuas a fitar a garrafa e não tens expressão alguma na cara mas consigo ver que contrais todos os músculos num ricto. Dor pura de um estoicismo que me destrói. Ponho as mãos em cima das tuas, não chegam para as cobrir, mas é tudo o que sou capaz de fazer. Como se diz a alguém que se ama “lamento que o teu filho tenha morrido”?

– Quando?
– Logo em Abril.
– O Gustavo foi aquele primeiro adolescente que morreu de Covid na Holanda?
– Sim. Tinha asma, sabes?
– Sim, tinhas dito que quando era miúdo a Mariana passava noites com ele no hospital a oxigénio. Não fazia ideia, lamento tanto.
– Obrigado.
– Não sei que te diga.
– Eu sei. Ninguém sabe. Nem eu sei o que dizer a mim mesmo.
– Foi por isso que só voltaste a voar agora?
– Voltei à escala logo em Maio, nos voos urgentes e de abastecimento, voluntariei-me. Só não te contei.
– E a Mariana?
– É mais forte do que eu. Ou disfarça melhor. Foi ela que tratou do funeral do Gustavo. Não o pudemos ver. Sabes que quando a mãe do Gustavo morreu uns meses depois do divórcio ela foi viver comigo por escolha própria? Tinha 14 anos e disse-me que eu precisava mais dela do que a mãe. Ficou comigo quase dois anos, até o Gustavo entrar para a escola.
– A tua filha é extraordinária.
– É. O Gustavo também era. Um velho adolescente, era o que eu lhe chamava. Sempre sério, sempre ponderado, sempre sábio. Não sei como tive a sorte de ter um filho tão admirável como ele. Ensinou-me mais a mim em 15 anos do que eu alguma vez lhe conseguiria ter mostrado o resto da vida.

Abriste as comportas e sei-te o suficiente para saber que esta purga é o mais próximo que vais chegar de um exorcismo. Falas sem parar durante três horas. Tenho que ir aplacar o chefe de sala com chantagem emocional para não correr connosco. A prova de que ainda há amor no mundo vem quando me ofereço para duplicar o pagamento da conta, mas recusa e diz ao empregado de mesa para dali para a frente só vir ter connosco se o chamarmos.

Saímos para as ruas estreitas e sombrias do Raval de madrugada. Aqui não entram os carros de limpeza do Ajuntament, mas a zona já não é o escoadouro a céu aberto de outros tempos. Até ao bairro de Moix chegou a gentrificação. Vamos caminhando devagar, continuas a falar, é como se agora não conseguisses parar de relembrar o teu filho, como se lhe estivesses a tecer uma elegia que largas ao mundo das profundezas de um desfiladeiro catalão. Passamos pelas traseiras do Gran Teatre e cruzamos a Rambla para atravessar a Plaça Reial. Vou escorando este abandono emocional na mesma medida em que deixo os passos flanar guiando-os para onde temos que ir.

Paramos em Santa María del Mar, a única igreja que sabes que amo, e sentamo-nos nos degraus em frente à porta ferrada com os bastaixos que Falcones deu a conhecer ao mundo.

– Lembras-te do exemplar do Stardust que me trouxeste assinado pelo Gaiman um Verão? O Gustavo apropriou-se dele e leu-o tantas vezes que me citava passagens de cor. Aprendeu inglês com aquele livro e um dicionário ao lado. Apaixonou-se pela Yvaine. Viciou-se em novelas gráficas. Estava a ler a Maus quando foi para o hospital. Não nos devolveram nada do que foi com ele. Por um lado foi melhor, não sei o que faria com o livro. Mas estive a arrumar o quarto dele antes de vir e trouxe-te o Stardust. Pertence-te, de alguma forma.

É um traço da nossa relação que me consigas silenciar com tiradas que dizes com este desapego, como se estivesses a dar a informação do trânsito matinal na rádio das nossas conversas. Desta vez o embate foi duro. Volto a fixar-me no teu rosto, mas continuas a não conseguir olhar para mim. Há horas que tens as pupilas fixas no infinito, como se estivesses a ver o Gustavo através do véu da morte enquanto o pões em palavras, sem folgas nem hesitação. Dou-te a mão, estamos os dois gelados, e continuamos a andar. Desembocamos na Ciutadella, mas contornamos o parque. Tento perceber se de alguma forma intuíste para onde nos estou a levar, mas acho que nem reparaste que não virámos para Barceloneta, que é onde temos o hábito de acabar as nossas madrugadas.

Já percebi que o destino te é indiferente esta noite, e que ficas aliviado pelo mero facto de teres um caminho para percorrer, mas tenho medo do choque que te vou dar. Acho que pode ser libertador, mas não sei se vais reagir como tenho esperança que o faças. A Avinguda d’Icària parece que não acaba, mas felizmente continuas imerso nas tuas recordações e começas a sorrir quando me contas como o Gustavo aos seis anos explicou em detalhe aos coleguinhas da escola que o Sinterklaas simplesmente nunca conseguiria de forma alguma enfiar bolachas pelas chaminés de todas as crianças da Holanda numa só noite e chegas mesmo a rir quando te lembras que nesse dia chegou a casa com o desenho que tinha usado para se explicar e te perguntou porque é que os amigos não tinham acreditado nele.

Entretanto chegamos. Sei que o portão principal só é aberto às oito da manhã, mas já escrevi livros suficientes sobre Barcelona para também saber qual é a porta discreta que fica aberta para os locais irem e virem conforme lhes dá jeito sem se sujeitarem às regras que tentavam gerir as turbas antes da pandemia esvaziar a cidade. Começo a ficar nervosa quando desvio o rumo para o cemitério. Espreito-te de soslaio e vejo que concluis instantaneamente o que viemos aqui fazer. Paras. Abrando o passo e olho para trás, mas continuo a andar. Levantas os olhos, encaras-me e vejo os teus ombros descaírem um pouco. Levantas o queixo, inspiras com tanta força que vejo as asas do nariz a abrirem e sei que é agora. Ou vamos ou rachamos. Endireitas as costas e começas a marchar na direcção da entrada. Dou dois passos de corrida para te abrir as grades e seguimos pelo meio das filas de túmulos. Dou graças aos céus pela lua cheia, se tivesse que acender a lanterna do telemóvel isto ia ser ainda mais constrangedor. Ouço o barulho de água de uma fonte, e os nossos passos. Não temos que andar muito e chegas quatro passadas antes de mim ao túmulo d’El Santet. O santinho.

Era um pedaço mais velho que o Gustavo quando morreu, mas há uns anos passámos uma tarde a discutir como era curiosa a devoção da cidade pelo filho de um vendedor cego de tapetes que praticava a caridade e previa o futuro. Na altura disseste-me “se pudéssemos todos ser recordados na morte com tanta admiração, o mundo seria um sítio bem melhor enquanto estamos vivos”. Lembro-me bem porque pus essa frase ipsis verbis na boca de um personagem um par de anos depois.

Plantas-te em frente à vitrine onde se amontoam as cartas com pedidos, promessas e agradecimentos que os piedosos entregam com esperança e ansiedade e perfilo-me ao teu lado. Não sei como vais reagir, mas ponho-te a mão direita no ombro esquerdo. Sem que tenha sequer tempo de te apertar a escápula num sinal físico de conforto, desabas de joelhos no chão, e levas as mãos à cara. Percebo que estás a soluçar quando ouço o teu choro, debruço-me e embrulho-me à tua volta. Não consigo fechar o círculo deste abraço, mas seguro-te com toda a força de que sou capaz, sei por experiência que cingir com firmeza um corpo que sofre é a melhor forma de o aquietar. Ficamos prostrados uma eternidade, a eternidade que é precisa para lamentar a morte de um filho.

Quando regressamos ao Raval, devagar, num passo difícil e pesado, continuas a falar, mas agora de como te sentes perdido na vida sem o Gustavo, de como vives todos os dias em desespero e impotência. Como tantos pais que também perderam crianças, falas desse átimo ao acordar que antecede a entrada em funcionamento da consciência e em que te esqueces que és órfão de filho. Dizes que nas escalas mais longas que fazes te enches de doses curtas de benzodiazepinas para adormeceres e acordares em sucessão só para viveres esse vislumbre de paz.

Ao chegarmos ao apartamento estás exaurido, pareces um espectro, como se tivesses ido abandonando energia vital pelas ruas e agora não te restasse vida suficiente para sustentar sequer o invólucro do corpo. Dispo-te, deito-te e enrolo-te em todos os agasalhos que consigo encontrar, enquanto fervo água na cozinha para um chá. Quando regresso ao quarto, dormes, imóvel. Sento-me na sala à espera que o chá arrefeça e ainda ligo o portátil que tinha deixado na mesa de café quando saí para o Orfeó, no século passado do final da tarde anterior. Mas a simples visão do cursor a piscar no fundo branco do ecrã dá-me náuseas. Varro sempre os meus demónios para baixo do tapete da escrita, mas ainda não sei sequer o que tenho dentro para esconjurar.

Somos lentos nos dois dias que se seguem. Deixamo-nos estar. Na cama, no sofá, nas esplanadas, nos restaurantes, até nas ruas que palmilhamos em órbitas nos prolongamos. Às vezes falamos do Gustavo. Mas partilhamos muitos silêncios. Estamos presentes e há uma lucidez que ilumina essa consciência, mas é como se gastássemos o tempo a aceitar. O pior ainda é ver-te acordar e lembrares-te. Testemunhar esse primeiro impacto quotidiano que é recuperar da amnésia do sono.

Chega Domingo e voltas a vestir o uniforme, como se as insígnias te dessem um escudo defensor. Endireitas os punhos da camisa por baixo do casaco, dás-me um beijo, dizes-me o “até já” que repetimos há mais de vinte anos, agarras na mala e sais, sem hesitar nem olhar para trás. O oco do apartamento quando a porta bate nas tuas costas é assustador. Agarro na bolsa e saio de rajada pela porta fora. É quase fim de tarde, não tenho muito tempo. Corro pelas ruelas do Raval, do Gotic, da Ribera até voltar a Poblenou. Quando chego à vitrine, pouso o saco no chão e tiro o livro. Hesito. Procuro pela esferográfica, abro a página assinada e acrescento-lhe por baixo “Para o Gustavo, a quem dei a Yvaine sem saber”. Chego-me ao mausoléu e olho para a foto do santinho. Enquanto pouso o livro em oferenda, encomendo-lhe a alma do pai, que pela do filho já nada há a fazer.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

3 opiniões sobre “El Santet

  1. Fico sem palavras. Escritas ou faladas. Quando sou arrasado por narrativas assim, não há nada melhor do que o silêncio. Um silêncio que deixe que tudo continue a ser absorvido, que todas as palavras que acabei de ler continuem a atravessar o meu ser como acabaram de o fazer, que tudo se encaixe num assombro permanente perante tamanho edifício emocional. Completamente rendido.

    (e o Falcones, e Barcelona, e o Gaiman…. caramba.)

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    1. Vês porque é que é essencial para mim que regresses, regresses às letras, à pena, ao teclado, aos telegramas, às cartas, aos recados que seja? Porque me lês e me devolves um cortar de fôlego desses que faz valer a pena ter dormido 3h30 de ontem para hoje para saber que o que espremi pelos dedos te tocou, dessa forma que mais ninguém sabe dizer.
      “Edifício emocional” é o Pulitzer a que posso ambicionar. Obrigada. Por te reencontrares nas minhas caixas de comentários e, nesse espaço, habitares a minha vida em palavras que nem mereço.

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      1. Lamento, neste momento apenas consigo argumentar em cinco parágrafos ou menos…
        E apenas porque realmente gostei do que escreveste e senti que tinha de deixar algo escrito, na esperança de que haja mais capítulos nesta história…
        Beijos. Grandes.

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