Monogamia

Sou irrequieta. Funciono numa frequência estranha, como os assobios dos cães. Nunca estou completamente imóvel, durmo quase nada, almoço em pé, tenho ideias em catadupa e oscilo ao ritmo de uma labilidade emocional extrema entre a euforia e a angústia. Sou uma montanha russa e das que dão medo à séria porque só têm a queda vertiginosa e o loop invertido.

Há nisto tudo um elemento de inevitabilidade. Na única vez em que me obriguei a parar e a ser a norma quase me deixei morrer. É um encolher de ombros diário que faço ao espelho: #éoqueé e só posso jogar com o baralho que a vida me deu, sem cartas na manga nem bluffs manhosos.

As consequências são, elas também, duais. Se por um lado não quereria existir no real sem esta euforia destravada do hedonismo que descobre milagres nos espaços entre as pedras da calçada, por outro é extenuante permanecer ad aeternum neste intervalo entre dimensões, sem pertencer completamente a lado nenhum, qual gato escondido com o rabo (sempre) de fora.

Tenho a sorte de ter aceitação na minha vida. Uma sucessão de pessoas que vêem para lá da turbulência e têm a bondade de se prenderem ao fundamento de quem sou tentando amparar-me nas quedas (frequentes) da minha biografia. E são tantas e tão diversas que por vezes sinto que cruzo estados da matéria quando oscilo entre estas minhas tribos. É que a irrequietude faz de mim omnívora, uma consumidora voraz de diversidade, uma diletante eterna que insiste em meter o dedo em todos os potes de mel, sem se aprofundar em tema algum, uma perene dandy d’”Os Maias”.

Da união do deslumbre constante, da curiosidade incontrolável e da mania de fazer acontecer nasce a catadupa. E se, por ter percebido que a vida ao contrário do coração não é elástica, aprendi já a dizer que não, ainda não domino a arte da alternativa. Nem a da alternância. Se vejo, quero e é possível – é para fazer. Em consequência, acumulo. Monto pratos em cima de varas e danço de uns para os outros para garantir que nenhum pára de girar.

Nas últimas semanas, além dos dois trabalhos que conjugo, apareceram-me mais quatro projectos. E digo apareceram-me com lucidez porque, desta vez, não fui eu que os fui procurar ou provocar. Entre ideias que ao deitar ainda fazem mais sentido do que ao acordar, propostas de colaboração e vontade de criar o que faz falta e ainda não existe, assisto à multiplicação dos post-its na nova secretária branca que estreei há pouco e ordeno-me que seja metódica e monogâmica: um de cada vez. Olho para cima, vejo o meu reflexo no vidro da janela, resigno-me de sobrancelhas arqueadas em auto-exasperação e abro quatro documentos de trabalho.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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