Diz-me o que calças…

“Walk a mile in their shoes.”

E se em vez de uma metáfora feita conselho de vida, levássemos à letra a batida expressão anglo-saxónica e nos dedicássemos a palmilhar uns quantos quilómetros nos reais sapatos alheios? Cheios de ciclopirox, claro, que os tempos não estão para desleixos.

A minha (santa) mãe calça o 35. Eu sou um 37 com dias em que me imponho ao 38. Fazer 1,6 quilómetros nos seus muito razoáveis Ecco seria, ainda assim, um martírio. Dedos encolhidos, calcanhar em sangue ao fim de uns 2500 passos. Pensando bem, um resumo apropriado de uma vida de sofrimento imposto por si mesma e pelo destino, num involuntário regresso à metáfora. Avancemos.

A Sofia calça o 39, é alta e gosta de o ser ainda mais, razão pela qual não larga, nunca, nem em casa, os seus saltos de 12 centímetros. Se o sapato tiver plataforma, 15. Para seu conforto (diz) compra sempre o 40, o que lhe permite “não massacrar os pés” (de novo, Sofia dixit). Fazer uma milha nos seus Louboutin pretos implicaria encher a biqueira de algodão em rama, palmilhar devagar e cuidadosamente para evitar uma entorse e passar uma semana a naproxeno para apaziguar a minha quase-hérnia lombar. Tive uns anos de vida em que não dispensava os saltos. Elevavam-me o rabo, a estatura e a autoestima. Estou velha que chegue para dispensar as três e sei que a Sofia, do alto dos seus 38 anos está apenas a querer prolongar uma juventude que recusa ser efémera. É um sacrifício que conscientemente, já não faço. Mas siga a rusga.

O António, apesar de alto, calça uns simpáticos 41. Fora do escritório só usa sapatilhas, em forma de bota. É uma cena de desporto, conforto e vaidade. Coleciona-as; tem umas seis ou sete a uso para os treinos e outras cinco ou seis para o dia-a-dia. Esta seria a experiência mais confortável, mas mais bipolar; tenho dois pares de sapatilhas: um para quando corro na rua e outro para o ginásio. São quase iguais e foram escolhidas, em grande parte, pelo que custaram. Têm anos e trato-as como ao frigorífico – estão lá para quando são precisas e cumprem a função básica que Darwin lhes deu. Caminhar uma milha nas sapatilhas do António seria uma experiência aborrecida, mas nova – como andar tanto sem riscar, sujar, dobrar ou estalar calçado de edição limitada com um potencial valor futuro gigante e um valor emotivo presente insubstituível? Prossigamos a jornada.

O Joaquim, apesar do nome, é o que 2021 decidiu classificar como um agro-beto. Uma joia de moço, mas ninguém lhe atura os tiques ribatejanos boleados pela Católica por mais do que uma noite. Sem surpresa, usa sapatos de vela castanhos. Não faço ideia de quanto calça, mas não há-de ser muito mais do que eu. A única coisa que há em grande escala naquela vida é o nome de família (é que já nem a conta bancária, pelo que consta, a mim que não sou de intrigas). Seria uma experiência fisicamente confortável e moralmente arrasadora. Na realidade, libertária como sou, acho que corria os mil e seiscentos metros só para minimizar a hipótese de que alguém conhecido me visse a caminhar uma milha nos vela do Joaquim. Fujamos, portanto.

A Xana tem as rastas mais bem cheirosas que conheço (ou será as menos pútridas?). É, toda ela, diferente. Tão diferente que, na sua diferença, quase só se dá com gente muito parecida com ela. Eu sou o que gosto de considerar a honrosa exceção, mas acho que, se for honesta, é só porque a deixo dormir lá em casa quando fica sem teto. É muito woke, completamente despreconceituosa e totalmente SJW. Ao fim de meia hora de conversa tendo a deixá-la no sofá e desistir porque o chorrilho de clichés só se compara àquele que ouvi numa noite em que um chegano me tentou engatar no Plano B. A Xana calça, sempre, sandálias. No inverno, deixa a água escorrer pelos pés como se fosse cristo e o seu mitológico lava-pés da semana santa. Acho que a ironia lhe escaparia. Não nego que as batidas e remendadas sandálias sempre me pareceram confortáveis, mas acho que só faria a já lendária milha sem esforço se estivesse de viagem e ninguém me classificasse como millennial (apesar das rugas) pelo calçado. Continuando.

Uma das pessoas que mais admiro no mundo, a Natália, tem uma paixão por Doc Martens. São, na realidade uma extensão da personalidade dela – sólidas, duráveis, estáveis e aparentemente imbatíveis. Nunca calcei umas Doc Martens, nem sequer uma imitação. Mas sei que, por muito que os sapatos da Natália me fizessem arder os pés, me sentiria, como dizem os miúdos hoje, empoderada. E aceitaria os hansaplast nas bolhas alegremente. Finalizemos.

Nos dias que correm uso invariavelmente sabrinas. Maleáveis, confortáveis, acessíveis, intercambiáveis em cor. Parece que não escapamos às metáforas, verdade? Não passo de uma mulher de meia idade, a fazer o melhor que pode, confortável em frente ao espelho que lhe devolve a autoconsciência de quem é, com sapatos neutros, rasos e cómodos. Porque o que importa [cliché alert!] é o caminho que falta percorrer e que assume maior importância a cada dia que se subtrai à esperança média de vida. Um passo de cada vez. Uma pessoa de cada vez. Uma inalação de cada vez. Em direção a um destino que, tem dias, é tão desconfortável como estes “A Liberdade de Movimento” em cobre e bronze.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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