Veranear

Ao fim de onze anos na casa que é só minha comprei duas cadeiras para a varanda. No parapeito, um globo de gin tónico, um cigarro que queima esquecido e um telemóvel pronto para ligar a quem já morreu.

É meia noite e estão 25 graus. A lua, desavergonhada, rasga um céu negro firme, completamente imóvel. O ar cheira a natureza que arrefece; a relva ondula, as folhas expiram, o mar parece galgar a distância e chegar, salgado, aos sentidos despertos, alerta, em bicos de pé.

O telemóvel agita-se com notificações, mas são flashes inconsequentes de vidas alheias que não têm espaço neste paralelepípedo semi aberto que se pendura na fachada de um prédio anónimo, num subúrbio inconsequente de uma cidade secundária encaixada num país que se acha mais do que se merece.

Sei que o ecrã onde escrevo, de teclado retro iluminado, me acende rosto, pescoço e decote e sei, também, que o eterno vizinho do apartamento da esquina do prédio do outro lado da rua me deve mirar, como faz sem pudor nem rubor há mais de uma década.

O ar imóvel que me embrulha a pele traz-me à lembrança outros tempos, outros climas, outras abóbadas celestes. Memórias que julgava perdidas regressam, saltitantes e empertigadas como se nunca me tivessem abandonado.

Baixo o ecrã, como se da tampa da caixa de Pandora se tratasse, por um instante e deixo-me correr. Sinto os pés firmes a bater contra o alcatrão, o impacto da passada nas articulações, o movimento automático dos braços, a respiração que não deixa espaço senão ao essencial. Inspira – estou viva -, expira – que faço com isso -, inspira – vive sem hesitação -, expira – só mais um passo -, inspira – para onde corro com tanta pressa? -, expira – a meta está ali, chega!

Volto à luz fria e impiedosa do ecrã, ao eterno cursor que, mesmo quando não lhe dou uso, nunca pára de me latejar nos pulsos, e sorrio. É preciso ter paciência, esperar, viver umas décadas. Mas com alguma dose de sorte e uma enorme quantidade de auto reflexão, sabemos. Levantamos o olhar do ecrã, antecipamos o ponto final, preto contra o fundo branco da página, e a certeza invade-nos as veias, como uma bebida quente que se espalha até às pontas de todos os dedos num conforto inato.

No globo brilham pedras de gelo solitárias. A brasa do cigarro extinguiu-se. O céu continua negro e a lua correu ao meu lado. Abandono o ecrã na cadeira vazia, encosto-me na minha, ocupada e preenchida, e agarro o telemóvel. Nove dígitos. A meta é já ali.

portátil em cadeira em varanda

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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