Do Amor em Tempos Digitais

Primeiro foi o cheiro. Nem sequer o aroma de um perfume, ou o odor de um creme da barba. Foi o teu cheiro. O cheiro da tua pele, despida. Encostar o nariz ao teu pescoço e sorver-te em emanações que imediatamente se transformaram em dopamina.

Tinha começado a Primavera e decidimos testar no mundo real a intimidade feita de afinidades que vínhamos cultivando nos últimos meses. Sem expectativas, mas em antecipação pura, partimos de cidades diferentes para um mesmo destino, onde coincidimos no parque de estacionamento com dois minutos de distância. Ficou logo ali quebrado o gelo da imaginação pelo prosaísmo das malas que se retiram dos carros e dos caminhos que se atravessam até à porta que hesitamos em quem abria para os próximos dois dias.

Dentro da casa de praia, de portas fechadas e malas pousadas, veio a primeira indecisão. Abrir janelas? Falar? Tocar? Costumo ser muito boa a aniquilar estes desconfortos, com a assertividade de quem sabe sempre o que quer, mas o inesperado da chegada ainda me mantinha em desequilíbrio e fez-me vacilar. Valeste-me tu, ainda mais declarativo que eu. Abriste uma das malas, tiraste uma garrafa de vinho e fizeste uma linha reta para a cozinha branca que se avistava para lá da sala. Aproveitei a trégua para afastar as cortinas e abrir as janelas que tinham a praia já ali à distância de uns passos – por isto te escolhemos, casa de praia – sussurrei.

Voltaste com a garrafa de Alentejano aberta numa mão e dois copos na outra. Pousaste tudo na mesa de madeira não polida em frente às janelas e juntaste-te a mim à escuta do marulhar do oceano, já ali tão perto. Extinguiste o desconforto que o álcool ainda não tinha dissipado quando colaste o corpo ao meu, me abraçaste pelas costas e repousaste o queixo no meu ombro direito. Na perfeição com que a vida ultrapassa sempre a imaginação, não disseste uma palavra.

Foi aí que te senti, no calor dos corpos juntos, nas respirações que se acertam, nos cheiros que se misturam. Foi aí que encostei o nariz ao teu pescoço e deixei roçar o rosto pela linha do maxilar coberta de uma barba de um par de dias, que ouvi raspar e eriçar a minha pele.

A história desses dois dias foi escrita numa dança em sincronia perfeita, sem ensaios nem treinos, tendo por testemunhas apenas as nossas duas memórias e as gaivotas que se atreviam durante as manhãs pelas janelas sempre abertas adentro. Gravámo-nos em olhares fixos de lados opostos de mesas, em descanso em lençóis frescos de algodão branco, em pés que balançavam dos parapeitos para se apoiarem em costas encostadas a espaldares de cadeiras de praia, em corridas aleatórias e espontâneas de pés descalços por areia firme e molhada.

Tínhamos já conversado tanto sobre tanto que foi feito de silêncios o tempo que partilhámos. De silêncios e de trocas.

No fim dos dois dias, saímos. Fechamos juntos a porta da casa de praia, caminhámos em compasso para o estacionamento e trocámos um olhar final à distância de duas portas abertas que nos haviam de reconduzir à realidade. Voltámos a falar tanto sobre tanto, mas nunca sobre tudo. Destes dois dias ficaram pegadas apagadas por ondas na areia e uma memória envolta em cheiros e arrepios de pele que surge sempre enublada por uma quase suspensão da realidade.

Foto de Lisa Fotios no Pexels, editada

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

2 opiniões sobre “Do Amor em Tempos Digitais

  1. Que maravilha perder-me nas tuas palavras.
    Já tinha saudades destas leituras, minha amiga. Obrigado.

    (Ganhaste-me ao primeiro parágrafo e a partir daí não consegui deixar de pensar num filme que vi, perfect sense, e em quão doloroso é perdemos os nossos sentidos, mesmo abraçados à pessoa que amamos.)

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