Partículas beta, posítrons e radiação gama

É como se os braços e as pernas deixassem de estar lá. Vejo-os, e se disser ao meu cérebro “levanta o braço direito” o meu braço direito levanta-se. Mas sinto-os sem os sentir, num adormecimento que me faz cravar as unhas na pele para tentar perceber se o toque ainda funciona.

Depois são as pernas, que às vezes falham. Quando corro, há um pé que se levanta menos do que devia e arrasta pelo asfalto, fazendo-me cambalear. Corro mais depressa e ordeno-me que levante mais os joelhos , fito o chão e o horizonte ao mesmo tempo, sentindo o sangue a bater no pescoço, o coração a acelerar, a respiração a aprofundar, esqueço os carros que reflectem os faróis no impermeável fluorescente, as motas que quase me arrastam junto com as maletas de entrega de comida, os transeuntes vagarosos que me vêem e seguem no ritmo lento das suas vidas. Entrego-me apenas a mim e ao interior do meu corpo, que obrigo a funcionar em estado de emergência, num latejar cada vez mais profundo e surdo, músculos a contraírem, pulmões a expandirem, pulsação a explodir nas têmporas.

Sinto-me viva quando ainda consigo forçar o meu corpo. Acalma a incerteza do desequilíbrio, a dúvida da visão turva ao anoitecer, o terror dos estalos eléctricos na nuca.

Começamos a morrer no momento em que engolfamos ar pela primeira vez, num grito primal por sobrevivência que apenas socializamos ao longo da vida. O instinto de permanecer é superior a quase tudo, fomos desenhados assim por biliões de anos de experiência biológica. E, no entanto, quando o impensável nos sobe pela espinha e assenta arraiais no nosso ombro, é difícil não pensar que o destino pode, de facto, estar sempre apenas depois da próxima esquina.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

One thought on “Partículas beta, posítrons e radiação gama

  1. O destino está mesmo ao virar da esquina. E é na passagem por cada esquina (cada agora), que criamos o destino (futuro).
    Morte também é algo que não existe verdadeiramente. Neste formato, apenas respiramos de maneira diferente. A nossa verdadeira natureza é maior. Ampla. E sabe que, seja o que for, está tudo bem. 🙂
    Esperança! *

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: