A lente

O mundo dorme. Ouvem-se aves e um ou outro carro à distância. Até as nuvens se imobilizaram num céu mais branco do que azul. Lá em baixo, do outro lado da Praça, há um homem que passa. Vejo-o do poleiro da minha varanda enquanto fumo um cigarro, numa tentativa de queimar tempo com o arder do tabaco enrolado em papel. Anda devagar, como se passeasse, mas não se demora nas montras das lojas da Baixa. Na verdade, os escaparates já têm pouco interesse; ainda antes de a morte descer sobre a terra nada mais mostravam que quinquilharias produzidas em massa, vendidas ao desbarato para adornar prateleiras e frigoríficos de transeuntes que buscavam em cidades alheias os propósitos que não alcançavam nas suas. Agora, depois de a doença se espalhar pelas ruas e nos suspender a existência, as vitrines empoeiram-se ao lado de portas que não voltaram a abrir-se e onde ninguém se dá já ao trabalho de, sequer, pendurar sinais de fecho, falência ou desistência.

É alto, mesmo daqui vejo-lhe a cabeça ao nível do topo superior dos vidros. Moreno. Se os ombros alquebrados trouxeram já alguma luz às fontes, não o vejo desta varanda onde o cheiro do vício e do ócio se espalha em espirais. Vai caminhando num ritmo monocórdico, ausente. Como se os pés o guiassem. Olha em frente, por vezes baixa a cabeça e imagino que veja os sapatos a pisarem a calçada, um depois do outro, nessa marcha que a sobrevivência nos impõe. Não percebo se tem destino ou se avança, como todos nós, porque não tem outra escolha. Vai atravessando a Praça pelos contornos, sem se abrigar da morrinha nos beirais dos prédios pombalinos, mas também sem se atrever a corta-mato pelo vazio despido do largo. Pode não ter pressa. Pode não ter forças para cruzar sozinho o deserto urbano. Pode estar a queimar tempo enquanto eu queimo tabaco e continuo a persegui-lo com os olhos.

Esmago a beata no vaso de crisântemos e sinto o filtro a queimar-me os dedos manchados de nicotina. Viro as costas à Praça para tirar outro cigarro do maço e perco-me à procura dos fósforos que encontro no prato do pote cheio de terra e de flores. Fixo o olhar na chama azul, amarela e vermelha enquanto inspiro o primeiro trago de droga legal e, quando o vejo outra vez, engasgo-me com o fumo. Parou, uma meia dúzia de metros à frente do sítio onde o deixei, e virou-se para a minha varanda. Olha para cima. Parece que é para mim que olha. Penso que me enganei no tipo de cigarro que levei à boca e miro em volta. Sou o único ser vivo na fachada do meu prédio a esta hora, nem a gata do vizinho do lado está cá fora a apanhar sol, provavelmente porque não há sol para ser apanhado. Aperto mais o filtro entre o indicador e o médio para parar o tremor e fecho os olhos enquanto aspiro o ar cheio de químicos até sentir que me queima o diafragma. Continua parado, pernas só um pouco afastadas, como se precisasse de se enraizar num chão de navio. Tem a cabeça levantada num ângulo que lhe cruzaria o olhar com o meu. Mas a esta distância é do tamanho da Rosa Ramalho que tenho na sala, quase um vulto a que nem uma visão perfeitamente corrigida como a minha consegue discernir as feições. Tem qualquer coisa nas mãos e levanta os braços. Parece ser uma câmara, é demasiado grande para ser um telemóvel, e está a encostá-la ao rosto. De repente, relaxo e percebo que me tinha quase dobrado sobre a balaustrada de ferro em inquietação. Será só um turista tresmalhado que passou a tarde a furar o confinamento para levar fotos de uma Lisboa escura e vazia no regresso a casa e calhou de anoitecer na mesma praça que eu. Não me está a ver a mim pela lente, está a fotografar a arquitectura do século dezanove onde me penduro.

A ideia deste possível voyeurismo assustou-me mas, agora que o neguei, cativa-me. É esta a natureza humana, dual, que teme o que desconhece mas persegue o que a ilude. Encosto-me à fachada, fria mas não húmida apesar do rio já ali ao fundo à direita. Apoio os ombros na pedra pintada de branco, assento a sola do chinelo esquerdo no chão e a do direito na parede; sacudo a cinza para o vaso e acompanho com o olhar a silhueta cada vez mais nítida à luz da tarde que desce no firmamento. Retomou o seu percurso, continua a calcorrear a Praça pelas aforas, num ritmo controlado. Crio-lhe uma estória. É o homem sem nome que viajou do centro da Europa até esta capital de Império de onde começaram novos mundos para se distrair por uns tempos no Club Med do velho continente e acabou confinado voluntariamente por uma pandemia que o prendeu a um novo lar. Quero desenhar-lhe uma profissão, mas para isso tenho que tentar perceber o que veste, apesar de estar tão lá ao longe. Apago o segundo cigarro ao lado do primeiro e apoio a palma da mão direita no ferro da varanda para o achar no extremo Norte do largo onde já deve ir. Não o vejo. Terá já passado para a Praça seguinte? Ou estará atrás de uma das árvores? Esquadrinho as ondas brancas e negras da calçada enorme e rectangular e dou com ele plantado entre a fonte e a estátua. Sobressalta-me a proximidade e, desta vez, tenho a certeza: tem uma máquina nas mãos e segura uma objectiva que parece ser de 50 mm com a mão esquerda. Não há fotógrafos canhotos. A lente tapa-lhe a cara, mas está suficientemente próximo para distinguir as ondas de um cabelo castanho escuro, espesso. Sem prata nas têmporas, mas com uma barba cerrada.

Digo para mim própria que pode estar a roubar a alma do prédio onde estou, famoso pelo botequim do rés-do-chão. Mas está no meio da Praça, as árvores tapam-lhe o café e o ângulo da máquina aponta na direcção da minha varanda. Decido que, na verdade, não tenho alma que me possa roubar, endireito-me e nem hesito antes de despir o roupão que enfiei para vir fumar assim que me levantei. Ao segundo confinamento, desisti da noção de horários de negócio e abdiquei do conceito de roupa de dia ou de noite, limito-me a trabalhar, alimentar o corpo e vir à varanda satisfazer os vícios. Quando me vê nua através da lente prova-me duas coisas ao baixar a câmara. Que era a mim que estava a focar e que é mesmo de almas que anda à caça pela cidade vazia. O sol está-se a pôr nas minhas costas, volto a vestir o roupão e entro em casa. Sento-me na beira do sofá que mantenho virado para a janela e espero. Levo o dedo indicador, que ainda cheira a cigarro, à boca e mordisco a pele com o maxilar inferior e a unha escarlate com os incisivos superiores. Não é fácil confundir-me e não vai ser um estrangeiro qualquer que me nega a provocação. Ouço a campainha da vizinha, o prédio é velho e o sinal estridente, que nunca ninguém aqui se deu ao trabalho de actualizar nada e eu, que ainda sou do século passado, sou a peça mais recente.

Quem vê os apartamentos da rua não percebe que a entrada quase escondida alberga oito inquilinos e não quatro, muito menos que a distribuição entre direitos e esquerdos se faz de olhos e não de costas para a Praça. Não havia mais ninguém na rua e a dona Esmeralda foi para casa do filho em Alvalade na Primavera; parei de roer o dedo na certeza de que é a minha campainha aguda que vai soar daqui a segundos. Espero. O dia já quase morreu lá fora e, quando ouço o toque, levanto-me para fechar as portadas de madeira e vidro por onde entravam o frio e o cheiro da cidade vazia. Vou devagar até ao estreito corredor da entrada, carrego no botão que liberta o trinco lá de baixo e apoio a mão esquerda na maçaneta da porta. Quatro andares não se sobem de um fôlego, mas o compasso de espera não me dá pausa. Estranhamente, também não me dá antecipação. Ouço os passos no último lanço de escadas e espero que se calem. Abro a porta. Está parado, pernas só um pouco afastadas, no meu tapete. Tem olhos castanhos e inesperadamente sorridentes, com rugas nos cantos. Na mão direita ainda segura a máquina fotográfica, com uma fita amarela e castanha enrolada pelo braço acima. Sapatos bons, mas gastos, calças de ganga, casaco de couro castanho encerado por cima de uma camisola verde. Tenho o roupão firmemente fechado desta vez e dou-lhe silêncio. Ri-se e entra-me em casa sem cerimónia enquanto diz, em bom alfacinha, “posso tirar fotos da tua varanda antes que anoiteça por completo? este lusco-fusco só se apanha em Lisboa”.

Fico parada, de porta e boca abertas, enquanto o ouço abanar a porta da varanda que acabei de fechar. É velha, tem truque e não vai lá com força bruta. Como eu, penso enquanto finalmente fecho a porta e levo as minhas sobrancelhas erguidas até à sala. Conseguiu passar para fora e as cortinas de cambraia branca fogem atrás dele. Lembro-me da cambraia do beijo do Carlos do Carmo quando assomo à varanda e vejo as luzes do castelo a acenderem. Deve-me ter ouvido, porque se virou assim que cheguei e começou a disparar o raio da câmara a dois palmos da minha cara. Rio-me também, mas tapo a lente de qualquer forma. Baixo a mão e investigo-lhe os olhos brincalhões enquanto pergunto “branco ou tinto?”. Fica sério e parece que me vê pela primeira vez. “Tinto, é inverno.” Vou à cozinha buscar dois copos e abrir uma garrafa que pouso no chão ao lado do sofá. Sentou-se no sítio exacto onde estava antes de chegar. É o melhor sítio da casa, não iria escolher outro qualquer. Vou ao quarto e deixo a porta aberta nas minhas costas enquanto tiro o roupão e enfio umas calças e uma camisola. Sei que me estará a ver refletida no espelho que tenho entre as duas janelas da sala e vejo nesta patetice uma vingança por não me ter fotografado nua de lá de baixo da Praça. Tem dois copos meio cheios de vinho nas mãos quando regresso e fala-me de olhos nos olhos através do reflexo mútuo do espelho “também moro numas águas-furtadas, mas tenho que ir ao telhado para ter esta vista, tenho grande parte da Baixa à minha frente”.

“Imaginei-te holandês enquanto passeavas lá em baixo. não pensei que fossemos vizinhos.” Ri-se com uma casquinada espontânea “sim, porque tenho mesmo a constituição e a cor de um Verhoeven”. Pego num dos copos e sento-me numa ponta do sofá. “Um homem do cinema, portanto.”
“Robocop ou Instinto Fatal?” Senta-se outra vez no mesmo sítio, que fica do outro lado do sofá.
“Ela.”
“Uma mulher do cinema, portanto.”
Desta vez sou eu que rio em resposta. “Uma curiosa de tudo.”
“Vi umas fotografias na entrada, são tuas?”
“Sim. Todas as fotos que tenho nas minhas paredes são minhas; ou fui eu que as tirei ou mas tiraram a mim. E tu? Só roubas almas a cidades?”
“Principalmente. Gosto muito de cidades vazias. À noite, sobretudo.”
A máquina está pousada no chão, ao lado da garrafa. Levanto-me e ligo-a. Vejo-lhe sobressalto nos olhos. Escolho o modo manual, levo o óculo ao olho direito e ajusto a objectiva enquanto me aproximo para lhe enquadrar os olhos e quase só os olhos. Pára outra vez de sorrir, mas não desvia o olhar. Não é provocador nem curioso. É o primeiro olhar neutro que vejo pousado no meu, ainda que filtrado por lentes, em muito tempo; entusiasmo-me e disparo sem parar, enquanto me afasto. Dos olhos passo ao rosto, do rosto ao plano médio, do plano médio ao panorâmico, já sentada na minha esquina da sala. Baixo a câmara e estendo-lha. Sinto-me cansada de repente. Recupera a máquina enquanto me levanto para ir buscar um portátil, e vai fotografando enquanto ligo cabos e apago a luz do tecto assim que o projector ilumina as janelas e a porta cobertas pela cambraia branca das cortinas. Desfilo fotos de Lisboa a preto e branco na superfície ondulada do tecido. De repente, levanta-se e vai ao bolso do casaco que tinha atirado para cima da mesa da sala, tira um telemóvel e põe música. À terceira faixa reconheço o alinhamento do Shore. Começo a ficar curiosa. Chegamos ao fim das fotos e há um momento de hesitação. Sou boa com dúvidas; vou à cozinha buscar outra garrafa e improviso um prato com o que há embalado nos armários, deixo ambos no chão onde voltou a pousar a câmara e escolho um filme da estante da sala.
“Amores Perros ou Requiem For a Dream?”
“Não tens Wim Wenders?”
“As Asas do Desejo?”
“Esse não me importo de rever”

“Last night I dreamt of a stranger, of my man. Only with him could I be alone, open up to him, wholly open, wholly for him, welcome him wholly into me, surround him with the labyrinth of shared happiness. I know it’s you.”

Quando a música sobe, ouço o som do obturador e apercebo-me de que esteve lá durante todo o monólogo final. Estamos os dois sentados no chão, costas contra o sofá, com copos, garrafas e pratos vazios ao nosso lado, e usaste a comoção que me domina sempre nesta entrega da Marion ao anjo para me roubar a alma. Volto a cravar-te os olhos e não sorris. Vejo compreensão. Mas assusto-me quando vejo, no instante seguinte, piedade. Desligo o projector, tiro o DVD da ranhura e ligo um cabo cuja segunda ponta te estendo. Pegas no portátil e com uma eficiência tremenda, ligas a câmara, instalas drivers e copias ficheiros. Sem uma palavra, recolhes o casaco, penduras a câmara no ombro esquerdo e sais, batendo a porta atrás de ti. Olho para o ecrã e vejo uma pasta nova. Corro ao quarto, agarro a minha máquina e salto por cima do sofá para chegar à varanda a tempo. Caminhas no teu ritmo lento e constante, na direcção do rio, sem desfitar o horizonte. Não levas a lente nas mãos e por isso sei que hoje não vais fotografar a cidade vazia, à noite. Vais regressar às tuas águas-furtadas, de onde tens que subir ao telhado para ver o castelo. Aponto a câmara, ajusto a abertura, foco e disparo. Vou tirar o espelho e pendurar-te entre as duas janelas forradas a cambraia. Dentro de uma moldura sólida, dourada e onde possa pregar com tachas minúsculas uma placa gravada à mão. “Damiel”.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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