. da perda

Os mecanismos da perda são curiosos. Revestem-se de desconstrução feita no meio da dor. Obrigam-nos a mergulhar no pântano do sofrimento e a espernear atolados em viscosidade e degradação, o que só nos afunda mais na prisão imobilizante de um certo desespero.

Perder implica posse. Vem daí a platitude parva do “mais vale amar e perder e etc”. A posse, já por si, é uma treta que obriga ao estabelecimento de escrituras emocionais com registo notarial na repartição dos sentimentos. Mas é inescapável, não montamos tenda em ninguém sem nos comprometermos com o proprietário do lote.

Quando nos vemos despejados ficamos à deriva. Sem abrigo. Vai-se a segurança, destrói-se o conforto, abala-se a identidade. É um acaso desnorteante que paralisa até as funções mais básicas da existência. Diz-se que não se vive, se sobrevive. Como se pode. Em esforço, sem tino, de olhos arregalados de medo e revertendo ao instinto primal de evitar a destruição.

Mas a ausência também cria vazios. Espaços. São feitos de memórias e de sentimentos, intervalos do real onde o ar é mais rarefeito e a temperatura mais baixa. São recortes com formas claras, como se alguém tivesse descarnado parte de uma certa dimensão para nos deixar apenas com a consciência da sua não existência. Passamos por eles a cada esquina, lembranças constantes do que desapareceu e já não está.

A dor de uma perda não se aceita, nem se acolhe. Tolera-se. Aguenta-se. Com cerrar de dentes, uma certa medida de resignação e alguma crença depositada num ponto que não se discerne num futuro que parece sempre demasiado longínquo. É uma dor feita de aturdimento, descrença, questionamento, ira, piedade, solidão, arrependimento, dúvida, isolamento, fuga, medo, exaustão, desamparo, recorrência, insónia, dormência, saudade. Feita de abandono.

E se há rituais estabelecidos que nos permitem lidar com a morte, a perda suprema, para todas as outras a vida deixa-nos ao acaso, sem velórios, procissões ou sequer despedidas. Ficamos largados num mundo que passa a amanhecer apesar de nós.

Para manter a metáfora de abertura, é só quando nos imobilizamos em aceitação no abismo lento da agonia que conseguimos ver o ramo preso a terra firme que nos servirá de âncora para, a custo e milímetro a milímetro, nos içarmos do lodo e repousarmos um pouco na margem do pântano enquanto recolhemos forças para, um músculo de cada vez, nos reerguemos e retomarmos o caminho, tentando não voltar a cair em terra pouco firme.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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