.da exigência

“Ninguém dá o que tu dás.”

Se visitarem o Blue Notes 1.0 há por lá um texto que, discretamente, cospe esta frase para cima da narradora. Continua a ser das poucas entradas que me orgulham à distância de mais de uma década. Não só porque se trata de um diálogo muito bem construído (assumo a cagança), mas principalmente porque é uma cena entre dois personagens que, usando apenas a dialética de uma conversa de cama, ilustra um paradigma da minha vida em que muita gente afirma que se revê.

Achamos todos que somos a última garrafa de Luso no Sahara. Deixemo-nos de PC, mesmo aqueles de entre nós que não o verbalizam, pensam, com maior ou menor timidez interior, em como são, wait for it, especiais. Daí se infere que, por diminuta que seja a nossa necessidade de reforço externo, somos todos sensíveis ao louvor. E aqui há que fazer pontos prévios; quando me refiro a louvor falo do reconhecimento verbal de algo em nós que se supõe que deslumbra o outro ao ponto de nos ofertar um elogio.

Ora, quando nos estendem a cortesia de nos declarar como apreciam e valorizam algo que temos para dar, há uma expectativa que é criada. O reconhecimento do talento alheio só é unidireccional nos museus. Nas nossas vidas, ninguém nos bate no ombro para nos dizer “és extraordinário” a troco de nada, há sempre um intuito, uma vontade de retorno. Estabelece-se uma reciprocidade. É palavra que adoro deixar rolar na boca: reciprocidade. Pela vida rola com a graça de uma bola cúbica de granito.

Entendamo-nos – sou uma libertária. Acho que toda a gente devia fazer o que muito bem entende com a sua vida, no pressuposto de que essa liberdade não interfere jamais com a liberdade do outro. Com esta crença vem um sentido do dever tremendo, uma hiperconsciência auto programada de que a audácia não pode nunca arrastar o incauto pelo asfalto por onde acelera. Vem daí um pudor exacerbado em estender o braço e penetrar na bolha de sabão alheia sem convite. Vem daí também a sirene de nevoeiro (que uso copiosamente) da verbalização.

São cercas concêntricas desenhadas para abrandar a aproximação ao centro do labirinto, forçando a intenção – ninguém tropeçará por acaso em quem sou. Quem de olhos abertos cá chegar terá passado pelos nove círculos da minha comédia nada divina e saberá ao que vem. Saberá inclusivamente que neste inferno só se está de uma forma: com desaforo. Terá escolhido cá chegar e deverá escolher cá ficar. E se nessa vontade enaltecer alguma eventual singularidade estará firmado um contrato tácito de mutualidade.

Tudo isto tenho como certo, como um pacto em que entro com lucidez e honestidade, e por isso supreende-me a cada recorrência o confronto que a esta altura parece inevitável com a dissensão. Com o “afinal, não”. Voltamos ao libertarismo: só fica quem está. Parece-me no entanto tonto que se monte tenda no acampamento 4 para se desistir quando se bate com os olhos na Cornice Traverse. É um mecanismo que, como se comprova em blogues, tento compreender há mais de uma década, sem que daí tenha retirado qualquer iluminação (ou ensinamento, já agora).

A aceitação do livre arbítrio alheio é uma sábia lição que a vida nos impõe, mas o cansaço dos anos que passam pelas têmporas e engelham a pele também se faz sentir na paciência, cujo stock nunca foi pródigo desde o início, admitamos. E com cada investimento que sentimos que perdemos vão-se mais umas lascas de bonomia e constroem-se novas cercas, na esperança de que um dia o crivo funcione e de que quem chegue fique. Exigindo e reciprocando.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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