Umbral

Saio da casa de banho enrolada num lençol feito toalha onde as manchas de água vão alastrando e colando ainda mais o algodão à pele húmida do banho. Levantas os olhos do livro para os pousar em mim. E sorris. Esse sorriso espontâneo de garoto desarma-me sempre, e hoje por alguma razão quase me comove.

– Tinhas toalhas no armário.
– O lençol serve. Até é mais fresco.
– Se fizesse isso em tua casa punhas-me as malas à porta.
– Sinto-me rebelde.

Tiras os óculos, pousas o livro, soergues-te e com as mãos apoiadas no colchão inclinas-te sobre mim num beijo que não pede licença nem desculpas. Agarro-te a cara com as duas mãos, enfio-te os dedos no cabelo, inclino-me para trás e puxo-te sobre mim. Caio em cima do cabelo molhado que ensopa imediatamente o colchão. Páras e pões-te a ver-me à distância dos braços esticados. Gostas muito deste jogo de vontades em que me contrarias e desafias, tanto mais divertido quanto mais desconfortável me intuis.

– Este teu novo autor promete.
– Original, não é? Decidimos publicar por causa disso, foi unânime que era uma voz inédita, estamos muito entusiasmados com o miúdo.
– É novo?
– Sim, tem uns 25 ou 26 anos, por incrível que pareça.
– A sério? E escreve sobre abandono? Num primeiro livro?
– É o primeiro que vai publicar, disse-me há uns dias que tem mais três fechados em casa. Usou essa expressão, “fechados em casa”. Fala como escreve, o que também é surpreendente. Vais ver quando acabares o livro, ou é um prodígio, ou é daquelas pessoas que sentem tanto que duplicam em experiência a vida que têm de calendário.
– Almas velhas?
– Lá estás tu com os clichés.
– Gosto de clichés, provérbios e sabedoria popular, já sabes. Existem para nos mostrar que não somos assim tão únicos e especiais como gostamos de nos imaginar.
– Somos todos iguais, é?
– Não, somos todos diferentes como no anúncio, mas vivemos todos no mesmo mundo. Podemo-nos expressar de formas distintas, mas sentimos todos as mesmas coisas. Amamos, sofremos, sobrevivemos.

Desço as mãos dos teus ombros para os teus pulsos e inclino a cabeça para a direita, num gesto do qual só tenho consciência porque mo espelhas em troça desde que nos conhecemos. Franziste o sobrolho enquanto falavas e quase que vi os teus olhos a escurecerem.

Antes que tenha tempo de passar o pensamento a palavras já estás a abrir a água do duche e a perguntar onde vamos almoçar. Aprendi com o tempo a dar-te espaço quando recuas. Recusava-me a esse baixar de braços no início, ia atrás de ti e perseguia-te os sentimentos até mos explicares. Quando desapareceste durante uma semana depois de te ter encostado às cordas emocionais com a morte do teu irmão, compreendi a minha brutalidade e comecei a dar-te distância. Compreensivelmente foi aí que passaste tu a vir oferecer o que antes tinha que perseguir. Enquanto me levanto para secar o cabelo, penso que deves ter razão e que somos mesmo todos permeados por uma consciência colectiva que nasce de milhares de milhões de anos de humanidade e que nos faz agir em padrão.

Demoras imenso no duche e uso sempre esse tempo para acabar de me arranjar. Rentabilizo-o com conversas matinais, como uma brigada de cozinha que faz a mise en place do dia. Trauteio “O Primeiro Jornal” muitas vezes de manhã.

Encostas-te ao lavatório de costas para o espelho enquanto pinto os lábios. É um dos meus gestos quotidianos que mais páras para ver, a forma como apoio o mindinho no queixo enquanto deslizo o lápis pelo contorno da boca, e virares-te ao contrário mostra-me que desta vez a minha intuição estava certa e que há alguma coisa que perturba a tua habitual bonomia domingueira.

– Lembras-te do António?
– O teu amigo da faculdade que estava na Grécia?
– Sim. Falei com ele ontem, chegou esta semana a Lisboa.
– Há voos?
– Humanitários sim.
– Ele ainda está em Lesbos?
– Sim. Veio cá buscar reforços, mas volta daqui a umas semanas.
– Imagino que as coisas estejam ainda mais aterradoras, com os incêndios, os contágios e o inverno à porta…
– Usou a palavra “desesperado”. Está a recrutar mais voluntários enquanto cá está. Aliás, foi por isso que veio. A ACNUR não tem profissionais que cheguem no terreno.

Cuspiste a última frase como se fosses um adolescente a desafiar a autoridade parental. Comungamos da mesma ideologia quanto à questão dos refugiados, por isso não é comigo que estarás irritado. Dou um passo atrás e ponho-me à tua frente, os teus olhos continuam escuros, tens o pensamento ocupado com alguma coisa que te preocupa.

– Fala comigo.

A tua cara é uma mistura de receio e determinação, tens os maxilares cerrados e olhas-me a direito, mas tens a cabeça levemente rodada para a esquerda, o que faz com que me mires meio de soslaio. Não vem por aí coisa boa.

– Vou meio ano para Moria.

Assim, a seco, sem desviares os olhos, sem hesitação, com a última sílaba uns decibéis mais alta do que a primeira. Numa fracção de tempo percebo um universo de coisas. A tua decisão está tomada, foi tomada sem mim e, provavelmente, apesar de mim. Não me estás a pedir uma opinião, estás a fazer um anúncio. Isto não apareceu assim de repente, já devias andar a ponderar há imenso tempo e nunca fiz sequer ideia. E muda tudo daqui para a frente.

– Quando?

E pelo levantar de sobrancelhas agora foste tu que foste apanhado de surpresa. Admito que isso me dá um certo regozijo, mas é quase instintivo. Não há nada aqui que cause satisfação a ninguém a não ser ao António e tenho vontade de me enfurecer com ele, como se a atribuição de culpas tornasse o sofrimento mais suportável.

– Ainda não está fechado, mas daqui a um mês no máximo, precisam de reforçar a equipa de saúde mental com urgência.
– Imagino que sim.

Tentei não soar sarcástica mas não acredito que me tenha corrido lá muito bem. Dou mais um passo atrás e giro sobre mim mesma para voltar ao quarto. Apetece-me chorar de frustração como quando era criança e decidiam a minha vida por mim sem que eu tivesse direito a voto, preciso de uns minutos para me recentrar sem ter um psiquiatra a escrutinar-me as reacções. Desiquilibro-me e agarro-me à argola de ferro que prende a cortina na ombreira da porta. Sento-me na cama e percebo a expressão “afundar a cabeça nas mãos” pela primeira vez porque é o que tenho vontade de fazer. Sinto o meu cérebro a estalar e nem tenho coragem de ir lá abaixo ver o estado do coração.

Vejo-te sair da casa de banho. Trazes aquele ar triste e resignado dos funerais, de cabeça alquebrada mas ombros escorreitos, com dor e aceitação. Todo o teu corpo grita sacrifício e é isso que me faz perceber. Quase já nem estranho quando te aninhas à minha frente, pousas as mãos nos meus joelhos, avanças um pouco a cabeça e de olhos escurecidos pousados nos meus perguntas suavemente

– O que é que estás a pensar?

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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