Músicas da minha vida – “Reflexos”

O jazz chegou à minha vida pela mão da minha mãe. Curiosamente, ela não ouvia jazz, foi sempre menina de coro de igreja, afinada e composta. Como já perceberam, saio ao meu pai. Mas os primeiros CD de jazz que ouvi entraram-me no quarto pela mão dela que, de alguma forma, começou a fazer-me uma colecção da Blue Note – estão a ver onde isto vai dar, não estão?

Lembro-me como se tivesse sido ontem, o primeiro que ouvi foi o “Blue Train” do John Coltrane. Há virgindades mais difíceis de perder. Ainda assim, estranhei. Havia ali qualquer coisa, a dissonância aparente fazia sentido. A música era diferente de tudo o que já tinha ouvido, os instrumentos pareciam tocar cada um para seu lado e, mesmo assim, encaixarem uns nos outros. O sax era… Nem sei. Nunca tinha ouvido música que corresse, assim, solta e sem regras, como se nascesse no momento em que era tocada, sem pensamento que a refreasse. Apetecia-me, ao mesmo tempo, que continuasse sem parar para eu perceber onde ia dar, o que ia acontecer a seguir, e parar tudo, voltar atrás e ouvir de novo porque de certeza que era impossível repetir aquela melodia. Até hoje acho que não há uma única faixa de jazz que alguma vez tenha sido tocada duas vezes de forma igual.

São quase cem CD que ainda guardo, como diamantes num cofre. Raramente lhes toco, ouço muitas vezes o que têm dentro mas em digital. Conservo-os numa gaveta do escritório, que abro ocasionalmente, para passar o indicador pelas lombadas azuis, com um prazer contemplativo e guloso. Tem de tudo, os clássicos estão lá todos. À medida que fui descobrindo, explorando, percebendo, fui navegando por outras águas. Nem sei bem quando tropecei em Bernardo Sassetti. Já tinha percebido que da música clássica me tinha ficado o amor pelo piano, que no jazz se multiplicava, como todos os bons amores devem fazer, pelo sax e pelo contrabaixo. Sassetti era português, era genial e juntava piano e jazz. Perdi-me de amores e nunca mais me encontrei.

O “Nocturno” apareceu-me já adulta, tão adulta que até já tinha o coração partido, e sem ser um álbum de jazz puro – ou se calhar por isso mesmo – tem a alma vadia que fado nenhum lhe consegue roubar. A “Reflexos” parece piano, pianinho, clássica e tranquila, até que chega o Carlos Barretto. Pára tudo. Assim, com acento para não haver equívocos. Ouve-se o Carlos respirar, arfar, para cima do contrabaixo. Sente-se a entrega, imagina-se o corpo agarrado às curvas do instrumento como se se parasse de o dedilhar caísse no espaço. É visceral. É dos momentos pausados mais desenfreados que conheço na música. Volta o piano e ouvem-se os pratos do Alexandre. O trio vai, em instinto, pela música fora. Reflectem-se uns aos outros e nós ouvimos, deslumbrados, como seis mãos compõem juntas um momento que transcende a união das partes.

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E é isso que “Reflexos” é para mim. Virtude.

“Reflexos”, Bernardo Sassetti, Carlos Barretto, Alexandre Frazão (“Nocturno”)

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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