eucaristia

Era uma vez uma menina. Não era particularmente interessante, nem chamava a atenção quando passava pelo caminho acolchoado a relva que levava ao átrio da igreja, dia após dia, sempre à mesma hora, a tempo da missa das sete. Menos aos Domingos. Aos Domingos não havia missa das sete. Usava invariavelmente saia e embora mudassem as cores e os padrões, parecia todos os dias, excepto aos Domingos, a mesma saia. Era afinal sempre a mesma menina que a usava. Era franzina, pequena para idade, diríamos, se soubéssemos que idade tinha. Se nos deitássemos a adivinhar, seria velha como o mundo, com o seu sobrolho carregado e semblante cismado. Quando passava junto ao café, a caminho da capela, pousava o olhar nos fregueses e abrandava o olhar sem atardar o passo. Via as mesas, as chávenas, as sandes, os cigarros e via os paroquianos calarem-se quando passava. Havia algo naquela menina que dava pausa a quem a via subir. Ninguém se lembrava de a ver ir-se embora, assim o padre dizia que fossem todos em paz e acompanhados. As gentes do estabelecimento diriam depois que, sem a avistarem, a acreditavam perdida na turba que se apressava colina abaixo nas saídas, que a hora era já de jantar e as graças estavam dadas para o dia. Na realidade, a saia não era vista a abalar, mas isso, veio-se a descobrir, era uma daquelas omissões pelas quais se peca. A menina era um movimento ímpar, passava sempre da esquerda para a direita, em subida, com a cabeça rodada sobre o mesmo ombro. Quando chegava ao largo da igreja, sentava-se na balaustrada pontiaguda de pedra, ao lado da árvore mais pequena do adro, de joelhos muito juntos, mãos nas coxas, costas direitas, cabelo caído todo para trás do pescoço, e ouvia a liturgia do lado de fora, que é nas mais das vezes o lado mais interessante de tudo. Percebia-se pelos lábios imóveis que não dizia uma palavra, mas inclinava a cabeça durante as homilias, sem que se lhe alterasse o rosto, numa inquirição muda. Num dia a seguir a um Domingo em que não havia missa das sete, a menina não veio. No dia a seguir a esse dia que seguiu o Domingo, voltou a não vir. No terceiro dia em que não veio, o povo juntou-se e correu a colina, à procura da saia e da menina que a usava. Já se achava que a menina tinha sido uma ilusão colectiva de tanto que a procuravam sem a encontrar quando foram dar com ela, sem a saia que parecia sempre a mesma, corpo e sangue largados atrás da maior árvore da colina, a que ficava virava para a entrada da capela. As pessoas juntaram-se todas para ver o rosto imóvel da menina que subia a colina a olhar para elas e acharam que tinham visto um sorriso na boca que nunca antes se tinha movido. Trancou-se a igreja, abandonou-se o café e nunca mais se voltou a falar da menina que, era uma vez, passava todos os dias, excepto aos Domingos, para ouvir a missa das sete.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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