segunda-feira

Era quase quase meia noite. Descia a bandeira xadrez no fim de semana vivido fora de mim e os planos já se organizavam para as despedidas de hoje. Toca o telefone, era a Catarina, “passei-me com o Manuel e o gajo trancou-se no quarto da miúda e nem sai nem me deixa entrar”.

O que começava a aparecer de antecipação de auto conforto ardeu como papel de seda sem um pensamento. “Mas tem a menina lá dentro?”

“Não, desde que chegou de casa dos pais que nem olha nem para a filha nem para mim. Organizou as merdas dele para amanhã, até saco para o ginásio o filho da puta fez. Passa por mim como se eu fosse transparente.”

“Pega na miúda e anda cá para casa.”

“Quem tem que se passar ao caralho é ele. Que vá para casa dos pais, já que acha que vive metade do tempo em cada família, que se mude para a outra que desta já não quer fazer parte.”

“E vais ficar aí a recozer essa merda na passividade agressiva das nossas mães? Foda-se, nem penses. Deixa juntar a Rita à conversa.”

Era quase quase uma da manhã. As visitas ficaram em minha casa a dormir recheadas com uma mistura de pizza e gin. A Catarina, a Rita e eu encostámos os carros uns aos outros, de portas entreabertas que os miúdos dormiam nos bancos de trás, sonos doces que comoviam pela ignorância inocente do quanto as suas vidas iam mudar dali para a frente.

Não se partiram tetos de vidros, que a idade já não é só de ativismo. Estilhaçaram-se dois casamentos de décadas numa irmandade que despiu a capa de conselho de guerra e se fez esta madrugada de abraços, lágrimas, mágoa, raiva, tristeza, catarse, desespero, gritos, pernas que falham e se deixam cair no chão.

Voltámos cada uma para as suas casas, abandonadas por dentro, angustiadas com a vida que seguia depois deste intervalo, para nos deitarmos ao lado dos nossos fantasmas. Dormimos as três sozinhas.

Acordei a olhar para o portátil desligado ao meu lado na cama. E sinto-me parva porque o meu problema foi não ter bateria e ter tido que escrever com os polegares. A Catarina e a Rita terão acordando a olhar para lascas de vidro ensopadas no sangue de amores mortos a apodrecerem nos quartos do lado. Mas é segunda feira e a vida precisa que as mulheres a continuem a fazer acontecer.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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