dar corpo à ausência

Assim que a porta se fechou nas tuas costas, foi como se uma cortina de gelo descesse sobre a casa. E não estou a ser metafórica, foi arrepio de pele, encolher de ombros em desconforto, nuca eriçada por calafrio. Como se atrás de ti tivesse ido qual cauda de cometa todo o calor destes dias.

Encostei-me à ombreira da porta e escorreguei até ao chão, costas na parede, joelhos dobrados, mãos pousadas nas coxas. De repente, esta casa que nos tinha embalado cobriu-se de ausência. De espaços vagos e desabitados, como um embrulho descartado. Deixara de fazer sentido ficar. Levantei-me e comecei a recolher os indícios da vida que ali tínhamos partilhado. A limpar o espaço de nós, essa entidade que o tinha habitado e que com a tua partida de repente se consubstanciava apenas em memória. Dizer que saí a correr é um eufemismo – pirei-me. A toda a brida.

Lido mal com finais e ainda pior com despedidas. Gosto de cristalizar momentos na minha memória, dispô-los em vitrines e revisitá-los quando me ataca a nostalgia. Apuro os sentidos sempre nos crescendos e emboto-os para os diminuendos. Precisava de suplantar a imagem da porta a encaixar na moldura com o som estridente do trinco a bater dentro da fechadura, por isso meti as malas no carro e fui até à praia.

O mar lava-me a alma. É o sal que purifica, as ondas que areiam, o céu que dispersa. Estava a chover e o primeiro frio da estação tinha chegado na véspera para ficar. Mesmo assim, descalcei-me, puxei as calças de ganga até ao joelho, deixei o casaco em cima da carteira e empurrei os pés contra a areia molhada enquanto caminhava cada vez mais rápido, cada vez mais para frente, com cada passada a aumentar a distância, com cada inalação a queimar mais o peito, com cada bater do coração mais rápido e mais latejante na garganta. Só parei porque me falharam as pernas e tive medo de cair. Tenho sempre medo de cair, correr é o maior exercício de fé que faço na vida.

Quando meti os pés na água gelada do Atlântico, já tinha a memória arrumada nos dias anteriores, toda preenchida por toques, palavras e pupilas dilatadas. Têm razão quando dizem que o amor é uma droga: vicia, cria dependência e causa abstinência. Estava a fazer o desmame dentro de água, com a maré a lamber-me as feridas do distanciamento. Num repente percebi. Acontece-me com alguma frequência, esta sucessão de desespero, fuga, exaustão, epifania – chamo-lhe o (meu) método.

Girei nos calcanhares que não sentia à conta do frio, voltei em passo de corrida ao carro, com escala pelas rochas para recuperar as tralhas, e regressei à casa. Por sorte a chave tinha ficado dentro de um daqueles cofrezitos de código pregados à parede. Rodei-a na fechadura, senti a lingueta a deslizar, a porta a ceder e entrei. Sem pausa nem hesitação, fui direta ao quarto, abri o roupeiro e tirei as almofadas extra da gaveta de cima. Saquei-a para fora, deitei-a na cama de barriga para baixo e fui à cozinha. Revirei os armários à procura da faca mais afiada e voltei ao quarto. Com pouca habilidade fui raspando a madeira. Nunca tinha feito isto e não é tão fácil quanto pensava. As curvas, então, são tramadas. Por alguma razão existem cinzeis. Soprei as lascas de madeira, passei a mão para limpar os contornos, levantei-me e contemplei a obra tosca que acabava de fazer. Duas iniciais, uma data. Devolvi a gaveta às calhas, com as almofadas dentro, e fechei o guarda-roupa. Sorri quando repus a chave na caixa.

Posso ir embora, agora. Ficámos gravados fora da minha memória, mesmo que ninguém nunca nos encontre. Quando precisar de nos revisitar posso fazer a viagem completa da nossa história sem medo do fechar de porta nas tuas costas. Existimos no avesso de uma gaveta, num quarto com beijos de Pessoa na parede, dentro de um pequeno apartamento de uma cidade costeira, algures no extremo oeste da Europa. Somos uma estória que se conta em duas letras e seis algarismos. É um código indecifrável que nos eterniza. Sento a tua ausência no banco do passageiro e levo-a comigo no regresso a casa. É um novo fantasma que me irá manter acompanhada, como uma sombra, onde quer que vá.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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