Aguda

Ouve-se o mar. As ondas, no seu ir e vir certo como a morte. Mas sente-se também algo mais profundo. Aquele rugido rouco do oceano que parece que nasce nos confins do tempo para nos trazer a memória de tudo o que somos enquanto humanidade. Limitamo-nos a navegar na superfície da sabedoria da água salgada, que nos viu nascer e que nos há de esquecer a todos, sem lucidez que nos ampare nesta navegação à vista que são as centelhas das nossas vidas.

A tua mão aberta está colada ao fundo das minhas costas. O entardecer não está frio e ainda assim a tua palma está quente na minha pele. És assim, irradias calor e o queimar do corpo é só uma expressão dessa febre. Abraço-te, com todos os braços que tenho e não me chegam. Enrolo-me em ti, junto as mãos nas tuas costas e acabo por te aconchegar a nuca com os dedos entretecidos no cabelo castanho. Escuro.

Entreabro os olhos, à distância de duas bocas que não se largam, e é nas pálpebras fechadas que vejo o teu abandono. Beijas-me sempre de olhos fechados. Quando não nos beijamos, olhas-me para dentro dos olhos. Nunca me miras, nem quando espreitas da soleira da porta do quarto enquanto me visto; vês-me sempre com intenção, em inquisição, como quem me quer saber. Quando me apercebi desse teu desaforo já me tinha habituado a ele.

O horizonte parece infinito quando o vemos do topo desta arriba. Como se o mundo nunca acabasse. Na verdade, se nos lançássemos da falésia e voássemos em direcção à linha que separa o céu da terra, o mundo nunca acabaria, renovar-se-ia em círculos ou elipses mais ou menos concêntricos, nunca se esgotando, houvesse asas que seguissem batendo.

Lá em baixo, rocha que desce até à areia, cheiro a sal, espuma na orla da maré. Espelho de água que se estende como uma imensa toalha cintilante até encontrar a paleta do sol que se aninha, também ele em descanso de final da jornada. As nuvens, caprichosas, esfiapam-se por todos os lados: em nevoeiro que paira sobre o mar, em algodão doce que flutua sobre as nossas cabeças, em pinceladas grossas de um pastel branco e cinzento que acompanham o contorno da terra.

É daqueles sítios onde tudo podia cessar, para onde se vai sem ideia de regressar. É daqueles sítios onde a tua mão nas minhas costas é mais quente, onde a brisa leve e quase morna do anoitecer faz ondular mais o meu cabelo, onde o som se entranha mais em nós em vibração pura e quase muda. É daqueles sítios – raros, raríssimos – onde me basta estar. Onde sinto paz e podia acabar-me. Já sem surpresa percebo que só preciso do aperto dos teus braços para exalar e, também eu, fechar os olhos.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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