. da perda

Os mecanismos da perda são curiosos. Revestem-se de desconstrução feita no meio da dor. Obrigam-nos a mergulhar no pântano do sofrimento e a espernear atolados em viscosidade e degradação, o que só nos afunda mais na prisão imobilizante de um certo desespero. Perder implica posse. Vem daí a platitude parva do “mais vale amar eContinue a ler “. da perda”

. da recorrência

Revisito-te amiúde. És permanência e inevitabilidade. Há algo de profundamente nosso que nunca nos abandona. Que sabemos sem dizer e que aceitamos com conforto. Temos história. Décadas que não são impunes. Partilhamos alma, razão e ser. Sabemo-nos e descobrimo-nos. Sem esforço e com vontade. Partilhámos camas por onde calhou, calcorreámos cidades de rios e deContinue a ler “. da recorrência”

.da exigência

“Ninguém dá o que tu dás.” Se visitarem o Blue Notes 1.0 há por lá um texto que, discretamente, cospe esta frase para cima da narradora. Continua a ser das poucas entradas que me orgulham à distância de mais de uma década. Não só porque se trata de um diálogo muito bem construído (assumo aContinue a ler “.da exigência”

Músicas da minha vida – “Reflexos”

O jazz chegou à minha vida pela mão da minha mãe. Curiosamente, ela não ouvia jazz, foi sempre menina de coro de igreja, afinada e composta. Como já perceberam, saio ao meu pai. Mas os primeiros CD de jazz que ouvi entraram-me no quarto pela mão dela que, de alguma forma, começou a fazer-me umaContinue a ler “Músicas da minha vida – “Reflexos””

eucaristia

Era uma vez uma menina. Não era particularmente interessante, nem chamava a atenção quando passava pelo caminho acolchoado a relva que levava ao átrio da igreja, dia após dia, sempre à mesma hora, a tempo da missa das sete. Menos aos Domingos. Aos Domingos não havia missa das sete. Usava invariavelmente saia e embora mudassemContinue a ler “eucaristia”

dar corpo à ausência

Assim que a porta se fechou nas tuas costas, foi como se uma cortina de gelo descesse sobre a casa. E não estou a ser metafórica, foi arrepio de pele, encolher de ombros em desconforto, nuca eriçada por calafrio. Como se atrás de ti tivesse ido qual cauda de cometa todo o calor destes dias.Continue a ler “dar corpo à ausência”

Aguda

Ouve-se o mar. As ondas, no seu ir e vir certo como a morte. Mas sente-se também algo mais profundo. Aquele rugido rouco do oceano que parece que nasce nos confins do tempo para nos trazer a memória de tudo o que somos enquanto humanidade. Limitamo-nos a navegar na superfície da sabedoria da água salgada,Continue a ler “Aguda”