. dos (meus) pais

À pala da pandemia os meus pais desenvolveram capacidades tecnológicas que me parecem verdadeiros super-poderes.
Agora, volta e meia, envio-lhes o que escrevo em forma de link pelo WhatsApp. O meu pai recebe, abre, lê. Sei que se comove na sua fortaleza de aparente indiferença e se lhe marejam os olhos. Nunca me diz que me leu, se gostou. Depois o meu pai dá o telemóvel à minha mãe: “toma lá, é da tua filha”. Ela lê e fica orgulhosa mas não percebe. Relê e, porque é mulher, tenta sempre ver onde anda o ser humano que é a filha no meio daquela dança de palavras e referências que desconhece. À noite diz-me o que leu e fala sempre só dos enredos, nunca do que lá vai que dói e corta e faz pensar.

O meu pai sempre me disse duas coisas. “Tens que saber fazer de tudo um pouco, para nunca dependeres de ninguém” e “não faças nada só por fazer, quando fizeres qualquer coisa faz por seres a melhor”. São conselhos que têm a sua sabedoria. Foram dados, desde muito cedo, a uma criança estranha, diferente, séria e circunspecta, que cobiçava brinquedos nas montras das lojas e quando lhe perguntavam se os queria respondia “não, obrigada”. Caíram num saco profundo por isso, e enformaram grandes traços da que é hoje a minha personalidade. Para o melhor e para o pior.

A minha mãe nunca me repetiu grandes mantras. É mulher de levar a vida adiante, como se pode, sem grandes planos, em instinto e imediatismo. Ensinou-me que as deficiências da vida só nos atrasam se as deixarmos. Ensinou-me que todos temos obrigações para cumprir e deveres que nunca se ignoram. Deu-me um universo de livros, o conforto tangível que nunca teve, uma família com história e um exemplo de estoicismo. Tentou sem sucesso temperar-me o ânimo. Deixou-me o encargo da culpa judaico-cristã matriarcal que é a maneira que tem de amar. Para o melhor e para o pior.

São assim os meus pais. Maravilhosos e terríveis.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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