Convénio

É comum dizer-se que o método criativo é um caminho solitário, que se faz em isolamento e reclusão. Como se a geração de algum tipo de fruto imaginativo se devesse fazer a partir de um local de exílio que legitime o valor da obra.

Ao mesmo tempo, a noção de residência é transversal ao universo cultural – o conceito de que a presença, individual ou colectiva, num espaço que nos é externo estimula o engenho e a produção artística.

Sempre escrevi sozinha. Já escrevi a quatro mãos mas nunca no mesmo teclado. Dar à luz o fruto de uma introspecção regra geral tão profunda e visceral como a que permite criar obra que veja a luz do mundo foi sempre um exercício de isolamento. Um mecanismo egoísta de individualismo puro, que nasce apenas do que nos pertence e se corporiza ao sabor das nossas vontades e decisões.

Quando me desafiaram para um exercício de partilha criativa, por alguma razão, nem hesitei. Sou mais instintiva hoje em dia, sigo mais as direcções que o mapa das minhas vísceras me grita por cima do barulho retumbante da minha mente analítica. Aceitei sem expectativas, com um simples “levo o portátil e música para partilhar”. Cheguei com manta e sorriso, mãos abertas e curiosidade.

Somos seis. Desenhamos. Tatuamos. Colorimos. Escrevemos. Programamos. Compomos. Paramos ocasionalmente para prestar atenção a uma música que salta para a ribalta. Lemos trechos de livros em voz alta, nas nossas línguas maternas, sem tradução, dando corpo ao conteúdo. Pela presença criamos um espaço comum em que cada expressão individual assume contornos de prole comunitária.

Em círculo, traçámos seres imaginados em que os contributos pessoais acrescentaram reflexos, nuances, profundidade e pormenores. Dentro da roda, foi táctil a massa fértil que nos serviu de tela. Ao som do sol de Outono uma mão desenhou um periquito que outra mão encheu de cores, uns dedos compuseram um refrão que outro pulso recheou de letras, num teclado escreveu-se uma aplicação que no teclado ao lado foi para o mercado.

Não foi sinergia, foi entendimento. À procura de partilha criativa encontrámos criação partilhada. E na relva atrás de nós deixámos quando partimos os signos de fogo de uma cabala que servirá de mapa do universo.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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