Um passo

O homem caminha lentamente pelo passeio estreito. Tem os ombros curvados e inclina um pouco a cabeça para frente, como se a rampa da rua o fizesse tombar. Olha para o chão mas parece nem o ver. Quando passa pelo halo de luz dos candeeiros, brilham as gotas de chuva que lhe escorrem pelo sobretudo grosso, pesado, escuro, daqueles que os varões de antigamente usavam porque eram quentes e duravam uma vida. O homem é jovem demais para esses agasalhos mas usa-o como uma luva. Os sapatos, no entanto, são de sola fina, deve ter os pés gelados e de certeza que é à conta da lisura da pele que desce devagar a calçada calcária. O cabelo está empurrado para trás, os sulcos das mãos que o puxaram para a nuca ainda visíveis entre as madeixas quase pretas. Continua a descer a rua, num andamento uniforme, contido, numa postura sem expressão de movimento que não a cadência cíclica do passo após passo. É como se fosse um corpo a cumprir um destino que se sente que em si encerra em paradoxo uma galáxia de mundos que rodopiam em elipse. No fim da ladeira dobra a esquina, atravessa a rua escura e continua a palmilhar caminho. Tem um intuito, um destino, e avança pela noite com pausada determinação. A cidade velha abre-se para o rio no fundo da encosta e o homem acelera o passo, numa linha recta que ignora geografias urbanas até chegar aos edifícios que se alinham na marginal. Faz um ângulo para a esquerda e prossegue inevitável. Quando passa pela tenda de campismo instalada nas escadas com vista para os restaurantes populares da beira rio abranda, desvia a cabeça pela primeira vez e tira a mão esquerda do bolso para a estender no sentido do abrigo improvisado. Por um momento parece que vai parar, correr o fecho e refugiar-se na companhia da solidão que habita aquela guarida. Deixa cair o braço ao longo do corpo no entanto e já nem devolve a mão à algibeira. Retoma a passada, ainda mais rápida como se tentasse recuperar algum tempo perdido. O passeio desemboca num parque de estacionamento e do terraço do edifício em frente, meio sustentado por colunas e todo virado para o rio, chega o eco de música e um burburinho de festa. O homem nem dispensa um olhar à luz que vem do convívio nocturno de fim de semana e gira desta vez para direita, no sentido do rio. Quando chega à vedação não hesita sequer, apoia o pé esquerdo num furo da rede, segura-se com ambas as mãos e eleva-se por cima do arame farpado que alguém cheio de sentido de humor enrolou em formato de coração no topo da cerca. As mãos que se prendem à malha metálica são esguias, de dedos finos – delicados mas fortes, como mãos de pianista devem ser. Ao avançar a cerca, a aba do sobretudo fica presa nas lâminas e corta a palma esquerda para o libertar. Salta para o chão com uma leveza que a passada pesada não deixava antecipar e prossegue determinado até ao fim do cais. Junto ao cabeço de amarração despe o sobretudo, que enrola com delicadeza e deposita no chão. Descalça-se e alinha os sapatos em cima do casaco. Tem o cuidado de meter os atacadores para dentro. Quando se soergue olha no que será a direcção da tenda onde quase parou e pega no que tinha deixado no solo como se fosse uma bandeira fúnebre dobrada em cerimónia. Há ali uma hesitação, mas acaba por devolver a trouxa ao chão. Encara o rio, mas de olhos postos na outra margem a seis quilómetros e meio de distância. Endireita os ombros e dá com a perna esquerda um passo em frente.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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