Perfil

Parou de chover, mas ouvimos as gotas, gordas, de água, a caírem, de folha em folha, desde o topo das árvores, lá em cima apontado ao céu claro da noite, até ao chão húmido que começa a cheirar a Verão que morre. Está escuro debaixo das copas e os holofotes a espaços encandeiam-nos o olhar. O caminho ondula e contorna, guia-nos numa conversa sem destino mas carregada de tensão, de intuito. Andamos devagar, os passos são pouco seguros, que o chão é irregular na penumbra e a presença física é inaugurada agora, aqui, numa visita que disfarçámos de casual caminhada nocturna.

Começámos a conversa em vozes firmes, junto ao portão, cheios daquela hesitação que veste a capa da autoconfiança para acalmar o balanço do arame suspenso que é a descoberta do outro. Fomos revendo as conversas tidas à distância, confortáveis e seguras, numa tentativa de dar corpo a uma empatia até agora só intuída. Os ombros foram descendo um pouco, os passos começaram a alinhar-se e os olhares já tinham firmeza suficiente para se manterem e prolongarem, em inquisição e alguma esperança.

Chegámos a uma curva da estrada, literal mas que tomámos por metafórica, e sentámo-nos num banco curvo, que fingimos que não estava molhado. Estes bancos de jardim são tontos, põem as pessoas lado a lado, ombro com ombro, forçando-as a olharem para um destino comum em vez de se verem uma à outra. Faço uma piada meia velada sobre as neuroses do Woody Allen e ris-te sem hesitação nem reflexão, em instinto e descontracção. E esse inatismo faz-me querer ver-te, apesar da tua auto proclamada timidez à volta da qual tinha dançado em pontas até agora. Rodo no banco, apoio o braço esquerdo no espaldar, encolho a perna e encaixo o tornozelo por baixo do joelho direito e olho-te. Com deliberação.

Há espaços no tempo que não sabemos quanto tempo têm. São uma dimensão própria onde as leis da física não se aplicam e existimos em suspensão. Houve um momento em que nos encerrámos num destes intervalos. Entrei em consciência na tua zona de conforto e senti-te hesitar. Estavas de perfil. Com a luz atrás de ti, eras mais contorno que desenho. O cabelo quase crespo da humidade, a testa suave, os óculos de massa que usas como escudo, um nariz recto, lábios grandes e torneados, um queixo determinado mas suave coberto de barba onde ponteiam a espaços fios desalinhados. Passem-me lápis e papel no meu leito de morte e desenho de um traço esta silhueta.

Vacilaste, confundiu-te que tivesse num repente mandado o respeitoso distanciamento às urtigas e te forçasse a mão pela primeira vez. Ainda começou a formar-se na minha cabeça um esboço de arrependimento, mas a tua mão esquerda encaixou-se num movimento afirmativo na minha cara, entre pescoço, orelha e face, com o polegar encostado à asa do nariz. Inclinei a cabeça para a direita com um gato o faria para comprovar o teu toque e enquanto deslizavas o polegar pelo canto da boca, entreabrindo-me os lábios e parando no queixo, reabri os olhos e vi-te, sem indecisão no olhar. Inclinei-me para a frente, encaracolei o pescoço à tua volta e sem deixar de te devolver a mirada deixei que fosses tu a encostar os teus lábios aos meus. As gotas de água pararam nas folhas das árvores em testemunho, a luz pareceu filtrar-se pelo ar em recolhimento e os sons notívagos do parque calaram-se em afinidade. A tua mão direita encontrou a curva da minha cintura e eu segurei-te a cabeça no meio das minhas duas mãos, num embalo instintivo. Foi um beijo dado com o corpo todo, concretizado em quatro lábios que se descobriam em crescendo, misturando toques leves e assomos de línguas com sorvos desprendidos e encaixes profundos. Na primeira pausa quis saber de ti, olhos nos olhos de novo, mas o acanho tinha-se esboroado e agora eras tu que não me davas espaço para perguntar. O encosto passou a abraço, o bosque retomou o seu ritmo e nós fomos criando o nosso, construído de miradas, faces que se encostam, desprendimentos que se exalam ao ouvido, e lábios, sempre lábios, que rodopiam por todo o lado, em beijos, afagos, mordidas, palavras sussurradas e impactos inesperados. Misturaram-se os cheiros das peles e as texturas das esperanças.

Saímos do parque de dedos entrelaçados porque não podíamos interromper o toque, mas quando nos levantámos parei, puxei-te levemente na minha direcção e em bicos de pés segurei-te o rosto com suavidade pelo maxilar e rodei-te até rever o teu perfil a contraluz: cabelo, testa, óculos, nariz, lábios, queixo. Com a mão esquerda agarrada à volta do teu braço, deslizei o indicador direito pelo teu contorno, guardando-te na memória.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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