. do processo

Há dias em que um par de palavras basta. Noutros, é um diálogo que começa na rua e termina na página. Na maior parte das vezes, é um esforço consciente. Uma decisão racional, um contrariar da procrastinação, uma tarefa.

Em conversa, ontem diziam-me “mas é normal não teres escrito nada hoje, não se pode estar inspirada todos os dias”. É a “cena” das artes. A centelha dita a criação. É vox pop e nada contra, odeio proselitismo sob todas as suas formas. Mas mesmo com drinks de fim de tarde à mistura, a cultura é trabalho, uma ocupação idealmente remunerada que implica o desempenho de uma função e a geração de um produto consumível. Digam lá, nunca acharam que um bailado podia ser descrito como uma manufactura pois não? E no entanto sem o ser é-o.

Vamos pensar em Shakespeare. Será que 39 peças, mais de centena e meia de sonetos, um par de poemas narrativos e vários versos avulso nasceram todos do sopro de uma musa? Se já leram entrevistas com escritores, sabem que há livros que levaram décadas a serem escritos. Na maior parte dos casos, uma mão cheia de anos. Na literatura fast-food, em que há contratos de agenciamento a cumprir, edita-se um por ano, em cadeia e sem deixar o leitor ressacar muito, a ver se não percebe que os vinte-e-quatro-euros-e-noventa-e-nove que gasta em papel não valem o peso do livro em reciclagem.

Em despojo, deixem-me que vos conte do meu regime. Estas tiradas curtas nascem das inquietações que me rodopiam no cérebro sem dar descanso ao pensamento. Num mundo de “produção de conteúdos”, são exercícios de escrita criativa. Em alguns dias provocados por uma tribo de gente que se desafia mutuamente e me dá uma palavra, uma imagem, um conceito, e me compromete a criar algo que não existia antes, num treino de plasticidade verbal.

Um LP redigido é todo um outro animal. Quando o lemos imaginamos o autor a arranhar o papel com a esferográfica em continuidade, como se o nevoeiro se fosse dissipando ao ritmo dos passos da narrativa. Que monumental chorrilho de estereótipos. Pensem em cronologias e genealogias. Pensem em fichas de personagem em que almas são reduzidas a disparos descritivos. Pensem em três horas de trabalho ininterrupto que, uma semana depois, é apagado num toque de tecla.

Pensem em obrigarem-se a reviver uma colecção dos momentos mais desesperantes da vossa vida para cuspir um parágrafo que vos deixaria orgulhosos se morressem no ponto final e que sabem que vai ser lido com a displicência de uma lista de ingredientes de champô.

Mas escreves porque queres, respondem vocês. Não. Não escrevo porque quero. Sum Ergo Scriptum.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

2 opiniões sobre “. do processo

  1. Escrita, boa escrita equivale realmente a uma grande dose de transpiração. A questão é sempre insistir em ginasticar o cérebro, flexionar os dedos no teclado, exercitar os olhos na escolha da frase que nos vai deixar com um sorriso nos lábios ao fim de um páragrafo que realmente valha a pena partilhar com o mundo.

    Percebi a achega, minha querida. Tal como já mencionei entredentes, insiste, persiste, resiste.

    Ainda vais conseguir fazer de mim um born-again writer… 😀

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