o meu corpo não é domínio público

Diogo Faro

É uma questão velha como o mundo. Quando a humanidade inventou as religiões subordinou a mulher ao homem e daí veio a enxurrada de lixo sexista que dominou o ocidente até à década de sessenta do século passado.

Comecei recentemente a reler “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir (reeditado pela Quetzal em 2009, com tradução de Sérgio Milliet), escrito em 1948-49 e é aterrador a atualidade que mantém. Deixemo-nos de copos meio cheios, o progresso que fizemos foi pouco, quase nenhum, enquanto frases como “a humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si , mas relativamente a ele” continuarem a ser verdade.

A decisão pública, política, que tenta regular o que acontece com os nossos corpos é uma aberração. Quisesse alguém mandatar vasectomias a homens com mais de dois filhos e teríamos carros incendiados nas ruas. Mas legislar quando, como e em que condições a mulher pode administrar o seu próprio corpo é encarado com uma aceitação escandalosa.

Partilho convosco algo muito pessoal, mas que ilustra bem a impotência em que vivem até as mulheres mais empoderadas, como é moda dizer-se. Soube desde muito cedo que não queria ter filhos. Aos 25 já tinha tomado essa decisão. Sabia que em Portugal não haveria médico algum que me esterilizasse com essa idade. Decidi ser dócil e mariana como manda a tradição lusa e esperar até aos 30. A primeira vez que pedi a um ginecologista para ser esterilizada tinha 31 anos. Depois de me explicar (e nem foi mansplaining, que era uma médica) que sabia que eu ia mudar de ideias no futuro mais ou menos distante e depois de me detalhar uma litania de métodos anticoncepcionais que eu já conhecia há mais de quinze anos, ordenou-me que reflectisse bem sobre a minha decisão. Achei que o desafio confrontacional iria funcionar contra mim e por isso agradeci o paternalismo e voltei dois meses depois. Fui clara, articulada, lógica e categórica. Apresentei o meu processo de raciocínio e a única conclusão que me fazia sentido de forma tão imperativa que quando me calei a única resposta que recebi foi um “devia procurar outro ginecologista”. Foi o que fiz. É o que tenho feito nos últimos onze anos. Cheguei aos 42 com o meu sistema reprodutivo intacto, contra a minha reiteradamente expressa vontade.

O facto de o meu corpo ter a capacidade de gerar vida não me vincula a nenhum tipo de expectativa social. O facto de eu dispor do meu corpo da forma que muito bem entendo não dá à sociedade nenhum – nenhum! – direito sobre mim ou sobre ele. A necessária regulamentação legislativa da vida em sociedade não pode nunca – nunca! – tomar decisões que se sobreponham ao livre-arbítrio do ser humano sobre o seu próprio corpo e a sua própria vida.

Quando afirmo (e afirmo-o cada vez mais hoje em dia), com voz projectada, que sou uma feminista feroz, sou normalmente recebida com olhares de sarcasmo, exasperação ou desprezo. Já deixei de receber grande oposição vocal que o feminismo voltou a estar na moda e a malta gosta sempre de parecer progressista e socialmente desperta. E não, não sou anti-homem. Aliás. Gosto muito de homens. De vários, até. Mas gosto mais de mim e das minhas irmãs, mesmo daquelas que se deixam regulamentar.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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