Porfírio

O meu avô foi fotógrafo. Quer dizer, foi caixeiro viajante a maior parte da vida, mas o primeiro emprego que teve foi como ajudante de fotógrafo e, depois, titular do cargo.

Quando nos tirava fotografias, às duas filhas e à duas netas, obrigava-nos sempre a usar maquilhagem e a pentear muito bem o cabelo. Dizia-nos para olharmos para o infinito, com o rosto virado a três quatros, mas não nos deixava sorrir com a cara toda, fazia rugas às senhoras, era o que nos dizia.

Herdei dele um amor inexplicável pela vida e um certo desprezo pelas convenções sociais.

Quando morreu, encontrei placas de vidro com fotografias impressas no fundo das gavetas da secretária gigante do corredor em cima da qual a minha avó costumava passar a ferro. Quis guardá-las, decidi não o fazer e agora arrependo-me, sinto que me descartei daquelas gentes que o meu avô em tempos eternizou. Mas guardei uma das máquinas, incompleta porque ele já cá não está para me contar como se apanhavam almas no tempo em que foi fotógrafo.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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