Odilia

A brisa que chega da rua mal é capaz de fazer abanar as pétalas das marilopes. O calor é denso, como tudo nesta cidade de sonho e maldição, onde a vida se corta à faca na mesma medida em que ainda é dançada na rua. Pela janela chega também o cheiro da goiaba madura, que flutua vinda da banca do señor Díaz, plantada na sombra da esquina à espera de um eventual turista que se tenha tresmalhado dos caminhos mais batidos.

A minha Odilia está sentada na sua varanda, sem janelas e de portadas sempre abertas, faça sol ou faça sombra. Digo-lhe sempre “su balcón es como su corazón, nana Odilia: blanco, caliente y abierto al mundo”.

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Gustavo Lutfi

Nunca a vi rir. Já a vi feliz, como no dia em que o Paco fez uma chamada de vídeo para o meu telefone e ela viu o filho pela primeira vez desde 1996. Tinha um sorriso de garota e chorava, chorava de felicidade por o poder ver e chorava de angústia porque não reconhecia o homem de meia idade que lhe sorria no ecrã. Chorávamos todos, arruinados pelos meros 367 quilómetros que destruíram a geração de cubanos que devia ter construído a utopia mais ansiada da história.

Cuba é um sonho por cumprir. É promessa que se vê forçada a existir num mundo onde não há salvação. E isso faz dos cubanos as pessoas mais crentes do mundo.

A minha Odilia faz tudo com gestos lentos, ponderados. Antes de se sentar à varanda, enquanto eu lavava os pratos num alguidar azul, a minha Odilia, suspensa sobre outro alguidar azul, esfregava um par de blusas com sabão. As duas mãos ainda fortes agarravam pontas opostas de tecido e, num movimento cadenciado, a direita raspava sobre a esquerda, assim, ao ritmo da Tristezas do Pepe Sanchez. Quando levanta os olhos e sorri, tenho vontade de a abraçar, de pegar nela e a fazer dançar e rir e perder a cabeça. Mas em vez disso enxugo a louça e deixo-a na mesa, enquanto a roupa imaculada pinga da corda para o chão. Não vale a pena torcer a roupa em Cuba, a água faz falta no ar.

Passa as mãos pela frente da bata, num gesto tão seu que a reconheceria noutra encarnação. Apoia a mão esquerda no parapeito e espreita a rua de ambos os lados, como se a fosse atravessar. Senta-se com o seu ar conformado, de quem aceita a vida como ela é e se empenha em a levar adiante, dia depois de dia, um saco de arroz de cada vez, esmagando flores de marilope para curar o catarro.

A minha Odilia levanta os olhos mais uma vez e volta a sorrir. Sempre sem rir.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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