Primum non nocere

Sinto que cheguei a um ponto da viagem em que começa a pesar a importância do que ando, em última análise, cá a fazer. A ausência de qualquer tipo de fé transcendental sempre tornou mais urgente a atribuição de significado à quotidianidade, que o peso da herança (pela ausência de desejo de prole) nunca o senti.

Viver o dia conforme se pode sempre me pareceu uma coisa estúpida – e fi-lo durante quase uma década. Não que ache que devemos o que quer quer seja ao outro ou ao colectivo, mas limitarmo-nos a existir como bestas selvagens parece-me um desperdício dos recursos com que a evolução nos dotou ao fim de uns seis milhões de anos.

Nos vintes achava que tínhamos o imperativo categórico de sermos a melhor versão de nós mesmos, activa e volitivamente. Nos trintas acreditava que devíamos fazer o melhor com o que temos da melhor forma que nos fosse possível. Parecem derivações do mesmo aforismo mas não são, separa-os um universo de (auto) aceitação de limites humanos.

Numa altura em que a noção de que, com optimismo, metade já passou e só sobra outro tanto, dou por mim a medir-me pela primeira vez ao espelho do outro. Só serei o ser humano que merece o meu próprio respeito se deixar nas vidas alheias marcas meigas. Assim, mesmo em aliteração: marcas meigas.

Apliquei sempre a crueza do meu próprio livre-arbítrio ao outro, crendo que sofremos todos as consequências das escolhas que fazemos. Nesse caminho – e apenas em retrospectiva o reconheço – fui responsável por hematomas que terão variado de tons e profundidades e que ignorei com velocidade e em sentido único. Afinal, se sempre avisei que mordia, quem decidia oferecer a canela devia saber o risco que corria.

Tremo com a arrogância desta juventude que vivi.

Não sei o que quero fazer com o tempo que me sobra embora saiba, agora, tantas décadas depois, qual é a minha identidade e a única forma que tenho de a manifestar no mundo. Mas sei que me medirei de ora em diante por um único princípio: antes de tudo o resto, não prejudicar.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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