Cartas de Amor – Luísa

Olá Luísa,

Um dia, há quase década e meia, escrevia-te assim:

Fresh starts

Vinte e quatro horas. Daqui a 24 horas tem início o tal resto da tua vida que canta o outro. Ancorada num passado recente e tempestuoso, cheio de vagas dissonantes, começa a nova e tão ansiada etapa. Amanhã regressas à cidade que viu nascer a nossa amizade, a uma vida que nos é comum. Segues o teu destino com a coragem que te é natural e com a claridade de pensamento que tanto te caracteriza. Cumpres a vida que a sorte te ditou com a fé que apenas têm aqueles que encontram o verdadeiro amor.

Contigo, no entanto, parte uma fatia da minha vida que não pertence a ninguém mais, que ninguém mais poderá algum dia compreender. A distância expande-se, fica um pouco mais intransponível. O lar espiritual da minha saudade gringa deixa de estar a 300 quilómetros, para ficar a 4.000 milhas. Vou sentir a tua falta. Vais-me fazer falta. Mas sei que nunca iremos perder a cidade que, através da amizade, juntas conquistámos.

They say parting is a sweet sorrow. They lie.

À L., na despedida. Love you. From here to the moon, and back! 😉 See you soon, really soon.

Passou uma vida desde este dia, uma vida em que estivemos distantes, em que saí do teu mundo e me afastei da tua amizade. Tiveste a graça e o sorriso de me receber de novo, como se tivesse sido ontem. Reencontrámos-nos na tua cidade, para onde regressaste num renovado salto de fé, desta vez acompanhada pela maior das esperanças – um filho. Pude ver como reconstróis a tua vida portuguesa – não sem dor, mas sempre com serenidade. Essa sabedoria calma que o tempo só reforça em ti e que admiro há quase quase vinte anos.

Somos, porque sempre fomos, mulheres tão diferentes e ainda assim tão iguais. Há um laço que nos une, um fio que só se vê quando a luz lhe pega de certo ângulo, e que tece uma compreensão mútua que nasceu de um sorteio e floresceu da empatia. Há uma frase que uso muito, Luísa, e que acho que nunca te disse: há pessoas que sabem. Assim, só, que sabem. A quem não é preciso explicar nem dar argumentos, que olham e vêem, escutam e ouvem – e só assim, sabem. Tenho a sorte de te ter na minha vida como uma dessas pessoas e tenho a esperança de ser também, para ti e na tua vida, alguém que sabe. Que te sabe.

Não acredito no destino, mas com a idade começo reconhecer ciclos e padrões e a duvidar das coincidências. Caímos de novo na vida uma da outra num ano de pandemia, num ano par – uma das minhas raras superstições – e recriámos em dias o lar que partilhámos em tempos. Com paredes pintadas de outras cores e hóspedes novos, mas com o conforto mútuo dos pés descalços na areia da praia e a partilha de pão à mesa – esse hábito social que sempre achei tão íntimo.

Separámo-nos com a certeza de um “até breve” e quando menos de duas semanas depois vi o teu nome no ecrã do meu telemóvel numa sexta-feira ao final da tarde, o meu coração afundou-se no peito. Descontraí a voz, porque podia ser um telefonema banal, mas a dor chegou à distância de uma voz. Perdi o chão, queria que o carro onde estava me levasse não para onde tinha que ir mas para ti, para te abraçar, para te confortar, para te dizer essa banalidade terrível do “vai ficar tudo bem”.

Sinto-me impotente até agora, agoniada com a ideia do sofrimento que vives e que só antecipo sem começar sequer a imaginar conhecê-lo. Sei que a vida sai adiante e se renova todos os dias, mas esta perda, a primeira e das mais primordiais, não se superará sem cicatrizes. E sei que é um caminho que percorremos sós, mas também sei que se torna mais fácil amparado.

Toma, Luísa, toma por favor a minha mão na tua e deixa que te ajude a firmar um pouco mais o passo daqui para a frente. Confia na força do meu braço nesta estrada que vais fazer e deixa que no que possa apazigúe parte da tua dor.

Que possas encontrar um pouco de conforto neste nada que é saberes que estou presente.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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