Cartas de Amor – Judite

Sabes, Judite, eu gosto de ti. Não sei, há coisas na vida que devem ser epidérmicas, que não se entendem e que não se explicam. Conhecemo-nos em viagem, dividimos quarto, conversas e afetos por duas semanas e por circunstancial que pudesse ter sido, ficou um querer bem até hoje, apesar no meu ghosting

Quero saber tudo sobre essa viagem tão extraordinária que é a da maternidade, ainda por cima a tua viagem, de uma mulher que sei que sente o quão transcendente pode ser criar um ser humano em conjunto com quem se ama.

Eu? Olha… Em primeiro lugar, sei que te devo uma desculpa pela ausência. Não me lembro de pormenores, mas sei que terei feito contigo o que fiz com 90% das pessoas da minha vida nos últimos 6, 7, 8 anos: desapareci, deixei de atender, deixei de ligar, deixei. Por isso, desculpa, na medida em que fores capaz de ma dar.

Ainda não sei muito bem explicar o que me aconteceu. Foi como se uma chama em mim se tivesse apagado, sabes? Lentamente, insidiosamente, tudo passou a ser demasiado, tudo passou a dar demasiado trabalho, tudo deixou de ser apetecível. Foi mais do que um acomodar, porque isso implicaria algum tipo de volição. Foi como se um dia tivesse acordado, me tivesse derretido na atmosfera e passado a existir. É a primeira vez que escrevo sobre isto, mas acho que foi isso: desistir. Desisti de mim, da vida, das emoções durante estes anos, limitei-me a existir, a continuar viva. Por alguma razão, que também ainda não sei explicar, há coisa de um ano comecei lentamente a recuperar quem afinal não deixei de ser e a trabalhar para recuperar os danos que fiz – em mim e nos outros. Com coisa que nunca tive na vida – medo -, tentativamente, sem conseguir na maior parte das vezes ver muito bem além da próxima curva da estrada, mas olha… pelo menos de forma consciente e tentanto, desta vez, ser e fazer um bocadinho melhor…

Pesado, eu sei, desculpa. Mas também sei que se há quem pode compreender o que tento explicar és tu.

Pragmaticamente, continuo no mesmo emprego (embora com pensamentos kamikaze em relação a isso), comprei a minha casa e vivo a vida independente que sempre quis e felizmente consegui concretizar. Não mudei de opinião acerca do casamento e da maternidade e por isso não casei e não tive filhos.

Fala-me de ti, por favor. Fala-me do homem que terás escolhido amar, fala-me desse milagre da vida que é a tua menina linda, fala-me dos teus pais que tanto amor te punham na voz, e do teu irmão que tanto enchia o teu coração de orgulho. Mas, antes de tudo, fala-me de ti, da Judite que conheci no Egipto e que sem promessas que as leva o vento quero trabalhar para voltar a ter na minha vida.

Com um abraço profundo destes digitais que ainda se pode dar, sabes, Judite, eu gosto de ti.

18 de Julho de 2020, 20:13

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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