jorro

Não consigo parar o meu pensamento, é como um comboio desgovernado, uma avalanche de emoções e ideias encadeadas ininterruptamente, que não consigo parar, abrandar, conter. Às vezes basta perceber que fiz algo tão pueril como um comentário que falhou a marca no Twitter para desencadear uma crise de horas de insónia naquela que era uma noite até então feliz e descontraída. A verdade é que nunca sei qual vai ser o gatilho que dispara a ansiedade, a cavilha que põe em marcha o mecanismo de auto-dúvida, insegurança e recriminação que me aperta, constringe e amarrota. São coisas tontas, em que mais ninguém se fixaria. Ou são pequenos pormenores menos felizes do passado, que se renovam dentro da minha cabeça uma e outra vez, numa catadupa de “what if?” que me embrulham o estômago e me impedem o sono.

Costumo dizer que hindsight is 20/20, e na verdade em retrospectiva tudo serve também para ser analisado, dissecado e reinterpretado, à luz do mantra do sou-uma-merda-e-faço-tudo-mal-toda-a-gente-fica-a-pensar-que-sou-uma-besta.

Impulsiva, sem travão, com pobres aptidões sociais. Olho para mim própria através do espelho do que acredito serem as visões alheias sobre mim e sou ainda mais implacável. Foste arrogante aqui, foste distante ali, foste egoísta acolá. Já nem escrever sabes e era a tua única redeeming feature.

Já nem escrever sabes. De tudo, o que dói mais. Porque conseguia lidar com tudo o resto, com a inevitabilidade da solidão que seria abandonar todos porque arruíno toda e qualquer interacção social, desde que mantivesse o meu toque de génio, a minha centelha de criação. Afinal, sempre achei que ao homem se podem relevar os pecados se a obra o redimir, estaria a disposta a aplicar essa bitola a mim mesma, assim mantivesse algo que a sustentasse.

Mas os livros que tinha dentro de mim parecem ter secado. Releio-me e surpreendo-me: se em muito continuo a achar que o filtro do tempo não me perdoa a mim também, em tudo o resto pasmo quase ao encontrar palavras esculpidas, frases torneadas que me eram imediatas mas que deixei de encontrar dentro de mim.

Tive textos que começaram só porque o som de uma frase rodava em passo de dança dentro da minha cabeça. Ainda agora hesitei antes de escrever passo com ss. É como se o meu cérebro estivesse embotado pelos anos em que o deixei adormecido. Como se a falta de uso tivesse causado uma atrofia cognitiva que acho que não consigo reabilitar à força de uma fisioterapia que não sei sequer se tenho força para encetar.

O prazer do toque e do som das teclas é o mesmo, escrevo ainda – sempre? – sem hesitações ou revisões, quase em stream of consciousness, mas não tenho personagens em quem plasmar as minhas dúvidas ou angústias. Escrevo na primeira pessoa sem artifícios, em carne viva, não por escolha, mas por inevitabilidade. Amanhei lerei e serei já capaz de me distanciar, mas esculpir palavras sem propósito ou estrutura não será grande obra.

Ponderei socorrer-me da amabilidade de estranhos, postar as minhas angústias num Reddit da vida, e encontrar uma voz anónima do outro lado do ecrã. Mas a ideia do outro, que me fascinava, entusiasmava e seduzia, paralisa-me agora. O anónimo do outro lado do ecrã seria ainda assim um investimento que não sei se tenho força para fazer. Preciso desesperadamente de me mover de forma intencional para chegar a esse sítio onde sei que preciso de estar mas não consigo desatolar-me do pântano de marasmo que me suga os membros num vácuo de inércia.

Oscilo constantemente entre uma imagem exagerada da minha própria importância e um ângulo liminarmente redutor de quem sou. A base de ambos os instintos é a mesma, self importance. A realidade andará bem mais próxima da neutralidade. Porque haveria meio mundo de pensar bem ou mal de mim, que só aflorei as suas vidas em interações inconsequentes? No entanto, é a possibilidade da interpretação alheia negativa que me paralisa e desespera.

Um sinking feeling no meu estômago, uma irrequietude que não me deixa ficar quieta por um minuto que seja, um instinto inato de me levantar, fazer a mala e fugir pelo mundo fora, não deixando nada – nem sequer memórias – para trás. É fácil ser-se perfeito quando não somos forçados a ver o reflexo das nossas acções nos espelhos sociais.

Será esse o problema? Uma necessidade ridícula de intuir algo perfeito em mim, sem compreensão nem afecto pelo humano que hesita, duvida, erra? Serei capaz de ver, aceitar e amar quem sou e não quem quero que vejam enquanto represento nessa grande farsa que às vezes acho que enceno?

Invento mundos de fantasia dentro da minha cabeça, em que ressalto diálogos imaginários entre quem me quero apresentar ao mundo e quem construo em detalhe para me servir de caixa de ressonância. Na ficção é tudo tão dolorosamente fácil. As personagens são quem precisamos que sejam porque são fruto do nosso ventre criativo e só aí têm que fazer sentido. Se precisarmos que gostem de amarelo, escrevemos com o cursor que pisca: “ele gostava de amarelo” e aí temos, o facto comprovado, inexorável e inquestionável porque o passamos ao papel.

E agora sistematizo que os meus personagens são sempre homens. A única mulher que escrevo é a narradora, é dela o ponto de vista, é ela a omnisciente, ela sou eu, que em mim carrego todas as mulheres do mundo. Quando somos a floresta, se mais ninguém ouvir os personagens que caem, eles existiram?

25 de maio de 2019, 3:47

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

4 opiniões sobre “jorro

  1. “Tive textos que começaram só porque o som de uma frase rodava em passo de dança dentro da minha cabeça. Ainda agora hesitei antes de escrever passo com ss. É como se o meu cérebro estivesse embotado pelos anos em que o deixei adormecido. Como se a falta de uso tivesse causado uma atrofia cognitiva que acho que não consigo reabilitar à força de uma fisioterapia que não sei sequer se tenho força para encetar.”
    É isto mesmo.

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