nocturnos

Contra tudo o que o instrutor Teodoro se esforça por me inculcar na cabeça, não perco o hábito de sair do Trindade, tirar a máscara, desenrolar o cordão dos fones, ligá-los ao telemóvel, abrir o Spotify e escolher o ritmo do resto da noite. Quase que o consigo ouvir a repetir-me, em todas as aulas, uma variante do mantra “isso te impede de estar alerta para o que te rodeia e antecipar possíveis perigos”. Ao que eu invariavelmente respondo “mas, Teodoro, se estiver toda alerta para o perigo eventual não vejo a beleza potencial”. É nesta altura que ele rebola os olhos e me ensina a livrar-me dum par de mãos na garganta.

Beleza potencial. É esse o meu nocturno urbano. É essa procura, em andamentos prestos ou graves, que faço quando ando, quando ando muito, por ruas de cidades que os dias abandonam.

As cidades que habitamos mudam às noites. São outra coisa, são outra gente, são outra vida. São as sombras de si mesmas, recheadas de ausências que se preenchem de solidões. As pedras acinzentam-se e ecoam. As praças ululam em expectativa, os jardins sacodem-se em desprendimento, as fachadas inclinam-se para nos verem passar.

As noites nas cidades são possibilidade, são promessa, são probabilidade que só se revela ao amanhecer. São halls de entrada contínuos de vidas alheias, com janelas iluminadas para salas de estar habitadas por luzes e vozes distantes.

Os estranhos com quem nos cruzamos pelos caminhos olham-nos nos olhos e há sempre um lampejo de reconhecimento. Ali vai um companheiro de viagem nocturna, alguém que palmilha os meus mesmos caminhos com sapatos alheios.

Às vezes faço estas viagens acompanhada. Deixo os fones nos bolsos e desenho a banda sonora a meias com alguém que também não conte quantos passos vão dos Aliados à praia do Molhe. São sempre gente que sabe moldar o ritmo dos passos à velocidade da partilha e desenrolar a meias o fio de Ariadne da noite.

Mas, como em tudo na vida, viajo pelas noites das cidades maioritariamente desacompanhada. Às vezes só, raramente solitária. Nesse estado de alerta que ignora o perigo para permitir o potencial, vejo com nitidez os fios das esquinas, os halos da iluminação, os reflexos dos gestos. Observo em permanente movimento – nunca páro – e deixo discorrer o corpo ao ritmo da mente que a música dita. Passa-me tudo pela cabeça: o passado, o futuro – se a caminhada for longa e rápida até o presente. Às vezes canto que afinal no peito desta desafinada também bate um coração. Sorrio muito, sorrio tudo o que não alcanço a sorrir de dia.

E comovo-me. É nestes flanares nocturnos que melhor me encaixo no tecido do real e me comovo com a plenitude imensa que é estar. Esse sentido de pertença que me engole sem aviso e me renova a fé assim que o sol, no final, se levanta no horizonte.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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