É só carregar num botão

Só me lembrei quando passei a soleira e senti o silêncio. Parei na entrada, com a porta ainda aberta, a carteira ao ombro e a Uncharted a saltar em automatismo do telemóvel para a coluna esquecida nessa manhã no esvazia bolsos. Ainda por cima Kensington era a tua cena, tinhas sido tu a trazê-los paraContinue a ler “É só carregar num botão”

coagulação, inflamação, proliferação, contração, remodelação

Começou tudo no sábado em que, a acabar de preparar o jantar para as visitas, cortei o anelar esquerdo ao mesmo tempo que o pão. Foi uma dor momentânea, de sangue abundante, com uma faca de pão grosseira que esfacelou mais do que golpeou. Apertei o dedo acima do coração a caminho da casa deContinue a ler “coagulação, inflamação, proliferação, contração, remodelação”

o meu corpo não é domínio público

É uma questão velha como o mundo. Quando a humanidade inventou as religiões subordinou a mulher ao homem e daí veio a enxurrada de lixo sexista que dominou o ocidente até à década de sessenta do século passado. Comecei recentemente a reler “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir (reeditado pela Quetzal em 2009, comContinue a ler “o meu corpo não é domínio público”

Banda Sonora do Amor

Todos temos aquelas canções que nos falam ao sentimento. A primeira faixa da mix tape que a crush do liceu nos gravou, aquela música que nos dedicaram numa guitarra, a melodia que nos acompanhou ao altar. Há umas que são sublimes, outras pirosas de todo, até há algumas incompreensíveis. Mas todas, todas, todas fazem soarContinue a ler “Banda Sonora do Amor”

Marcadores de Intimidade – Desmoronar

Somos todos construções sociais, por muito Mogli que nos achemos. Apresentamo-nos ao mundo conforme esperamos ser percecionados, modelando porte e trato. Há a nossa versão dentro da empresa, há nossa versão à mesa das reuniões familiares, há nossa versão primeiro encontro via Tinder. Espelhamo-nos constantemente na que acreditamos ser a expectativa alheia. E vivemos assim,Continue a ler “Marcadores de Intimidade – Desmoronar”

. da empatia

Imagens num ecrã. Eras imagens num ecrã, e nem o teu rosto se via entre elas. Mas as imagens no ecrã eram belíssimas, e as palavras eram as certas. Se os valores por trás dessas palavras fossem reais, estaria tudo lá – parecia tudo ajustado, sentia-se tudo presente. Encontrámo-nos e fomos explorando, trocando palavras, cautelosasContinue a ler “. da empatia”

Primum non nocere

Sinto que cheguei a um ponto da viagem em que começa a pesar a importância do que ando, em última análise, cá a fazer. A ausência de qualquer tipo de fé transcendental sempre tornou mais urgente a atribuição de significado à quotidianidade, que o peso da herança (pela ausência de desejo de prole) nunca oContinue a ler “Primum non nocere”

Ajoujada ao peso do afecto

Acabo de entrar em casa e trago nos braços a vida toda. Além do de sempre – a carteira, o portátil, a água, os livros, o telemóvel a tocar música – trago envelopes para correio editorial, cartas manuscritas recebidas, conversas acabadas de ter que ainda ressoam entre as orelhas e, pendurado nos dedos indicador eContinue a ler “Ajoujada ao peso do afecto”

Cartas de Amor – Luísa

Olá Luísa, Um dia, há quase década e meia, escrevia-te assim: Fresh starts Vinte e quatro horas. Daqui a 24 horas tem início o tal resto da tua vida que canta o outro. Ancorada num passado recente e tempestuoso, cheio de vagas dissonantes, começa a nova e tão ansiada etapa. Amanhã regressas à cidade queContinue a ler “Cartas de Amor – Luísa”

Cartas de Amor – Amores maiores

Inevitável. Incondicional. Irracionalizável. Explicar este amor é um exercício de futilidade. Há pouca coisa que não consiga, com maior ou menor esforço, passar a verbo. O amor que vos tenho é a excepção. Amo-vos porque sim. Porque não escolhi amar-vos, porque quando soube de vós já se me tinham misturado na massa do sangue eContinue a ler “Cartas de Amor – Amores maiores”

. da escolha

Como sociedade habituámo-nos a achar que o direito à vida é um dever. Que pelo facto de existirmos temos algum tipo de dívida para com o colectivo. Nunca acreditei nesse mantra. A minha vida a mim pertence. Posso escolher partilhá-la, mas no final do dia é minha e apenas minha. É por isso que oContinue a ler “. da escolha”

Cartas de Amor – Judite

Sabes, Judite, eu gosto de ti. Não sei, há coisas na vida que devem ser epidérmicas, que não se entendem e que não se explicam. Conhecemo-nos em viagem, dividimos quarto, conversas e afetos por duas semanas e por circunstancial que pudesse ter sido, ficou um querer bem até hoje, apesar no meu ghosting… Quero saberContinue a ler “Cartas de Amor – Judite”

. do fascínio

O cheiro de uma pele. Um olhar firme, sereno e perscrutador.Uma voz grave, de peito, uma voz de declamar, que faz da minha sala uma catedral em abóbada.O barulho de uma unha a deslizar contra o sentido do pelo da barba ao longo da linha do queixo.Uma mão aberta, firme, de palma empurrada contra oContinue a ler “. do fascínio”

Solidões habitadas

Adoro cidades. São o meu habitat. As minhas savanas. São confortáveis, todas reconhecíveis. Malhas urbanas, blocos empilhados, texturas espraiadas. Eixample e RavalBaixa Pombalina e AlfamaUpper East Side e Washington HeightsShinjuku e Shibamata É o conceito que as une: concentração populacional e infraestruturas. Os que as distingue é tanto e tão vasto como aquilo que fazContinue a ler “Solidões habitadas”

jorro

Não consigo parar o meu pensamento, é como um comboio desgovernado, uma avalanche de emoções e ideias encadeadas ininterruptamente, que não consigo parar, abrandar, conter. Às vezes basta perceber que fiz algo tão pueril como um comentário que falhou a marca no Twitter para desencadear uma crise de horas de insónia naquela que era umaContinue a ler “jorro”

nocturnos

Contra tudo o que o instrutor Teodoro se esforça por me inculcar na cabeça, não perco o hábito de sair do Trindade, tirar a máscara, desenrolar o cordão dos fones, ligá-los ao telemóvel, abrir o Spotify e escolher o ritmo do resto da noite. Quase que o consigo ouvir a repetir-me, em todas as aulas,Continue a ler “nocturnos”