minha Lisboa (que não quero deixar)

Parto de alma cheia, coração pesado e cabeça em turbilhão.

Redescobri essa capital que me pertence, 20 anos depois – renovada, mas ainda a mesma. E na altura perfeita: no final de um Verão que ainda aquece as ruas e liberta tempo às minhas gentes e a recuperar de um confinamento que devolveu os da casa aos bairros enquanto sacudiu o excesso de turistas.

Quando vivi Lisboa pela primeira vez já tinha um pé adiantado sobre o abismo do resto da minha vida. Era tudo rápido, ânsia, certeza e coragem nascida da inconsciência. E porque nos movemos sempre em círculos, agora que regresso à cidade da luz, estou outra vez no topo da colina, prestes a saltar e a voar para muito longe novamente.

Agora, no entanto, não sei ainda muito bem onde quero aterrar. Sei o voo que tenho que fazer, sei a força que preciso de ganhar nas asas, sei até as casas que importa sobrevoar. Mas onde irei parar é uma incógnita que tem doído tentar descobrir. Estava a antecipar uma crise de meia idade e levei com um terremoto existencial. Coincidiu – e será que acredito nesse acaso? – vir procurar respostas e destinos nessa Lisboa que escolho amar.

Estranhamente não planeei Lisboa. Vim para abraçar: os meus amores da capital e os espaços cuja ausência me corrói amiúde. E embora não tenha conseguido visitar os braços de toda a gente, carreguei-os comigo no peito enquanto calcorreava calçadas e afagava praças. Acabei até por tropeçar em confortos inesperados.

Mas fui indolente com o meu tempo – nada de São Jorge (e logo no Indie, por Darwin, no Indie que coincidiu comigo à custa do Vírus), nada de Nimas, nada de Ideal. Nada de Salvador no Maria Matos, nada de JP Simões na Casa do Capitão. Nada de Sozinhos Juntos na Fundação do Oriente, nada de Andreas Bitesnich no Museu Berardo. Regresso ao Porto deserta de Trindade, Casa São Roque e feira do livro no feminino.

Quis encher uma nuvem de imagens, levo um cartão de memória que tem tanto de vago como de emoção. Quis começar pela minha via sagrada e daí crescer para novos bairros e acabei por repetir tantas ruelas que já cumprimentava os vizinhos.

Mas enchi a alma. Vejo-o no espelho – o cansaço nota-se menos, o baço do olhar já foge, o sorriso é mais espontâneo. O caminho continua a perder-se no desconhecido do horizonte, mas os passos já se dão com maior entusiasmo. Lisboa não me terá salvado a vida, mas devolveu-ma numa bandeja enquanto dizia “faz dela o que fores capaz”.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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