Voltar atrás para seguir em frente?

Os trejeitos estão lá. O falar ininterrupto, o preencher o vazio com voragem. Os teus substantivos, os teus inatismos. A tua construção que nunca cheguei a perceber se é feita para ser fortaleza ou se é de facto simplesmente a tua fundação. Ao fim de algum tempo estava lá até o meu tique de revolver o cabelo durante a conversa com o entusiasmo da refrega.

E, de alguma forma, algo mudou. Sei que eu mudei. Ainda não sei se tu mudaste, mas é de supor que sim. Mas independentemente do diferente que estejamos, há algo que se desviou. Talvez não fosse expectável que retomássemos onde ficámos. Sei que o meu mea culpa, que mais não fosse, nunca o permitiria. Mas foi mais estrutural do que isso. Foi como se antecipasse um toque que ainda ardesse e que afinal me tivesse queimado pela sua ausência.

Costumava criar expectativa porque nunca questionava que a concretização seria sempre um escalar da antecipação. A projecção aqui foi curta e intensa. Arruinadora de nervos e fisicamente inquietante. Mas de alguma forma incumprida.

A dimensão física esteve ausente, o que foi estranho. Sei que ainda sou epidérmica, tenho-o comprovado por aí. Não vejo razão para que tu tivesses deixado de me ser epidérmico. E, inexplicavelmente, mesmo durante a recuperação de uma certa familiaridade, o desejo esteve fisicamente ausente. Relembrei-o, falei sobre ele, foi uma dimensão palpável da conversa mas não permeou a pele. Não mo permiti ou, a um nível inconsciente, não o intuí em ti e isso condicionou-me?

A outra estranheza foi o quanto senti necessidade de me editar. Falei mais dentro da minha cabeça do que contigo. O que nunca acontecia. Atropelávamo-nos a falar, numa pressa de movimento perpétuo, sempre sem destino, numa voragem e vertigem autofágicas. Mesmo com o batimento cardíaco já desacelerado e sem necessidade de colocar a voz para garantir segurança, não me senti em solo firme – em retrospectiva acho que passei o tempo a reboque dos rumos que foste dando à conversa, improvisando ao sabor do guião que ias tecendo.

Talvez não passe tudo de um reflexo desta onda de insegurança com que o processo de recuperação tem inundado o meu presente. Talvez haja algo que o tempo, ou a distância, ou a vida quebraram e que não é recuperável – pelo menos nos moldes em que foi outrora. Será necessário esperar para ver. E eu nunca soube esperar.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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