O tasco do bairro

Todos temos. Todos temos a capela diária de fim de jornada, a paragem na via sacra da quotidianidade.

Para uns é a confeitaria do pequeno almoço onde se sentam depois dos miúdos estarem na escola, para outros é o café do tio António onde fazem escala ao balcão antes do regresso a casa. É o proverbial tasco do bairro, ainda que já não seja tasco e às vezes já saia do bairro.

Para mim é sempre diferente. Muitos dias é o Trindade, extensão da minha sala de estar, ecrã maior da minha paixão. Quando o tempo ajuda, é o Monte, miradouro de gins e afetos.

Antes do vírus, encontrava o meu tasco do bairro em qualquer bairro em que ficasse. Viajo mais que tudo por cidades, fico 4, 5, 10 dias. Quando tenho sorte, tropeço no tasco do bairro logo no primeiro entardecer.

Quando o dia acaba e as pernas já não encontram mais pedras para pisar faço caminhos desviados para casa, procuro rotas alternativas às das manhãs. Com cansaço e fome estou mais atenta. Não vejo só as fachadas. Vejo as pessoas, ouço as conversas, espio os copos e os pratos.

Às vezes é um sorriso na primeira dentada. Noutras, é um convite sincero para entrar. às vezes parece por acaso, mas acaba por nunca ser. Há o barman do mexicano em Praga que é venezuelano e recomenda a melhor tequila do menu, a segunda mais barata. É a senhora que arruma as mesas no bistro do brunch em São Petersburgo e não fala uma palavra que não seja russo mas me faz sentir que estou na cozinha da minha avó.

Agora, depois do Vírus, quando aprendemos a descobrir cidades ainda mais de rua, é o Pedro da Graça que recomenda Alvarinho não verde, mineral como se fosse da península. E que me diz que as ostras, essas, são mesmo de Setúbal.

É o barulho das conversas descontraídas, daqui, dali e de onde eu venho também. Os copos que se erguem sem brindar, o vai-e-vem de pratos de alimentos ou despojos. A luz do astro que dá lugar à do bolbo.

É Lisboa, é Graça, é noite de Verão. É álcool, é conforto, é conversa com a mesa ao lado.

É o tasco do bairro para a semana.

Publicado por M.

Uma mulher. Um corpo, uma mente, um coração, uma alma. Dura, carinhosa. Desconfiada, crente. Chorosa, sorridente. Uma mulher, todos os mundos.

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